Entrevista com Da. Anastácia Basilícia de Camargo Ferraz

Da. Lícia, como é conhecida, é paraplégica em conseqüência de um acidente e move-se em cadeira de rodas. Sua fazenda em Querência do Norte (PR), após ser invadida, foi desapropriada pelo Governo em março/95.
Os sem-terra nela instalados até hoje nada produzem.

Informativo Rural – Como está a situação de sua antiga Fazenda Porangaba I, em Querência do Norte, desapropriada em março/95. 
Da. Lícia – A fazenda não está produzindo nada. Não tem absolutamente nada. Quem quiser pode ir ver lá. O povo está precisando de tudo, estão numa miséria tremenda. O Prefeito não tem verbas para nada. A região todinha está invadida, as fazendas todas. Já ficou uma cidade, ficou uma coisa só em matéria de invasão. E a pobreza lá é avassaladora. A creche está pedindo donativos, têm me telefonado dizendo que não tem condições de manter as crianças lá.

IR – Como é a história dessa creche?
Da. Lícia - Como havia muita criança pobre, eu propus à Prefeitura que abrisse a creche e eu ajudaria no que pudesse. É o que foi feito quando ainda não havia sem-terra na região. Abrigou 47 crianças. Colocaram inclusive o meu nome na creche, Creche Tia Lícia, porque eu ajudava muito com o que precisasse. Enquanto eu estive lá, ela foi mantida sem problema. Agora me telefonaram dizendo que todas as creches da região estão sem verbas e precisava de colaboração da gente. Aí eu disse que mudei para Londrina e estou ajudando outras creches aqui, e eu nem recebi ainda o dinheiro do INCRA que está bloqueado. 

IR – A sra. já recebeu algo em compensação pela desapropriação?
Da. Lícia – Iam me pagar, mas eu não recebi porque 200 alqueires de mata virgem o INCRA não quis pagar. Estamos com processo na Justiça para que seja feito esse pagamento, porque é lei pagar.

IR – Como foi a vistoria do INCRA?
Da. Lícia – Os fiscais foram olhar a fazenda, chegaram às 8 hs da manhã e às 10 hs foram embora. Fizeram o laudo em 2 horas, sendo que mil alqueires de terra não têm condições de uma pessoa fazer um laudo em 2 horas. Isso é injustiça. Como a fazenda é montanhosa, na beira da estrada não tem como ver os fundos. Porque mesmo o gado muda, ele não fica na beira da estrada. Só quando chove, todo mundo sabe que o gado chega perto da cerca. Teriam que entrar, examinar, teriam que fiscalizar. Agora, da beira da estrada, de dentro de um automóvel não tem como fazer o laudo.

IR – E a Sra. sofreu muito com a invasão?
Da. Lícia - Eles me apedrejaram. Para que eu saísse logo da sede, enquanto eu arrumava minhas coisas,  jogavam pedra, tijolo em mim. E além de tudo ainda atiravam de noite, do pomar, para me assustar, para eu ir embora mais depressa. Eu fiquei 6 meses lá resistindo a tiros e pedras. Já que eu ia entregar a fazenda não deviam fazer isso. Mas é um movimento que é preparado para isso. Para assustar a gente, para matar, para tudo.

IR – A Sra. tem notícia dos assentamentos no Paraná?
Da. Lícia - Lucro não tem dado para ninguém, as Prefeituras estão todas falidas, principalmente em Querência do Norte. Eu mesma já levei sacos de remédio para lá, mas a assistência médica é muito precária. Não estão produzindo nada. A terra lá em Querência é uma terra mista e precisa de muito adubo, de calcário, precisa fertilizar o solo. Sem isso, plantaram um pingo de milho e não deu nada. Algodão também não deu. Sendo que algodão é o forte lá da região, mas neste ano não deu nada. Está todo mundo falido.

IR – Há algum movimento de clero de esquerda em Querência?
Da. Lícia – Os invasores têm apoio deles, inclusive vão lá celebrar Missa nos acampamentos. Quando estava invadida a minha fazenda, os padres de lá foram realizar a Missa bem na frente da minha sede. Eu avisei o padre para dar comunhão também para mim, que eu também era católica e estava numa cadeira de rodas e precisava da Santa Comunhão. Ele não foi.

IR – O que a Sra. diz do grande número de desapropriações que vêm sendo feitas?
Da. Lícia – Dada a grande quantidade de terra que o governo desapropriou, acho que devia parar, para ver no que dão esses assentamentos. Desapropriar sem dar assistência, não tem como a pessoa produzir. O fazendeiro tinha crédito no banco porque tinha uma carteira de crédito devido a seu trabalho, sua honestidade. Agora os bancos nem conhecem quem está lá e eles não têm nada. Eles plantam de manhã para comer de tarde. Então não tem como dar crédito para um monte de sem-terra baderneiros. Eles pegam o dinheiro, a primeira coisa que fazem é comprar televisão, geladeira, rádio de pilha, a obrigação deles não cumprem. Então o que acontece? Acontece que o Governo vai desapropriando e vai largando. Acontece como está minha antiga fazenda. Está puro mato. Mesmo porque não é fazenda para agricultura, é para gado. Quem tem dinheiro para comprar gado?

IR – Qual o perfil dos invasores?
Da. Lícia – Colono caboclo tem uma minoria, mas é uma minoria. A maioria são os donos de casas de comércio, que querem terras para os filhos. Na minha fazenda mesmo tem famílias que pegaram terra em nome deles e depois puseram os filhos. E isso em fazendas diferentes. A maior parte dos que estão nas terras invadidas são filhos dos lojistas de Querência do Norte. É gente que tem propriedade, tem sítio, mas quer colocar os filhos. A partir do momento em que eles entram para esse movimento, eles têm que participar de outras invasões. São obrigados. Mas nenhum deles trabalha. Eles participam do grupo para fazer baderna. Tanto assim que na minha fazenda as terras que eles têm já arrendaram para outras pessoas. Eles não têm coragem para plantar, eles querem só viver assim, ganhando a cesta básica do Governo, invadindo e badernando.

IR – Como fica a propriedade privada?
Da. Lícia – O Governo apóia os sem-terra, o INCRA apóia, o pessoal dos direitos humanos apóia, só tem direitos humanos para o lado deles. Estamos de pés e mãos atados. As polícias não podem fazer nada. A polícia tem que ter mais autoridade e a polícia tem que ser mais apoiada. Porque se não tem polícia não tem como defender ninguém. Uma pessoa como eu, que estou de cadeira de rodas, vai ser defendida de que forma? Se a polícia matar um, não pode. Ela tem que morrer. Não existe lei, não existe o poder. A polícia não tem poder. O meu irmão ganhou uma causa no Supremo Tribunal, mas até hoje não foi ninguém tirar o pessoal da fazenda dele. E ele também não pode ir tirar. Tem agora esse direito humano. E a gente faz o quê? O coração incha, a gente acaba com doença, acaba com tudo. Eu mesmo tive problema cardíaco, inchou meu coração, a pressão subiu demais e os sem-terra não queriam que eu saísse, não queriam que a ambulância entrasse lá para me retirar para me levar para o hospital. Eu fiquei 3 dias com a pressão a 22.

IR – A Sra. gostaria de acrescentar algo?
Da. Lícia – Acho muito bonito essa colaboração do Informativo Rural para que haja ordem e justiça no País. E não baderna. Porque um País não cresce se não tiver organização e não tiver ordem. Com isso tem-se esperança de trabalhar e sobreviver. Agora, dessa forma, com essa bagunça, essa desordem, com risco de perder a vida, não tem nenhuma família que consiga trabalhar e consiga viver em paz.


Voltar