A Reforma Agrária destrói a vida de suas vítimas

Entrevista com Da. Maria Antonieta Canello de Freitas

Da. Maria Antonieta Canello de Freitas (Da. Marô), proprietária agredida e expulsa da Fazenda Marília -- posteriormente desapropriada -- em Colméia (TO), concedeu entrevista ao "Informativo Rural", da TFP e à revista "Catolicismo"
"A Reforma Agrária destrói a vida de suas vítimas"

P – Por que a Sra. se considera uma vítima da Reforma Agrária?
Da. Marô – Segundo o economista Kenneth W. Sollit, "há certas verdades que serão sempre verdades, ainda quando se tente negá-las. Na realidade econômica, por exemplo, não se pode decretar a independência dos pobres simplesmente determinando que os ricos deixem de sê-lo. Não se pode multiplicar a riqueza, dividindo-a. O governo não pode dar ao povo nada que não tenha, antes, tirado desse mesmo povo. E tudo aquilo que um homem recebe, sem trabalhar, um outro homem terá que trabalhar, sem receber".

Sollit parecia escrever sobre a Reforma Agrária no Brasil! A "nossa" Reforma Agrária não só destrói  o meio ambiente, mas semeia miséria entre os inocentes-úteis que acreditam conseguir viver em terra doada, sustentados pelo governo, sem trabalhar. A Reforma Agrária destrói a vida de suas vítimas. O governo chega ao cúmulo de formar e financiar cooperativas, propiciando aos "diretores" a ocasião de explorar seus cooperados.

Tudo isso já é muito conhecido graças tanto à propaganda que fazem os movimentos que manipulam os ditos "sem-terra", como pelo inevitável vazamento da conseqüente miséria em que vivem os assentados, apesar dos subsídios generosos do INCRA.

Há, porém, um aspecto muito pouco divulgado: o que acontece com aqueles que são vítimas da Reforma Agrária. O que acontece com aqueles que são expulsos de suas terras. O que acontece com a vida de quem perdeu tudo aquilo que conseguiu pelo seu trabalho.

Poucas pessoas, felizmente, experimentaram a minha dolorosa situação – ser proprietária e moradora de uma fazenda invadida por uma horda de "sem-terra". Tratava-se da Fazenda Marília, localizada no município de Colméia, TO. Lá era a minha casa, a casa de minha família; lá estavam as minhas flores, minhas árvores, a minha ampla sala de trabalho, tão despretensiosa que, até hoje, não consigo pensar nela como "meu estúdio", onde nas horas de folga pintava porcelanas, aquarelas, desenhava...

P – A partir de quando a Sra. começou a ter problemas com invasores?
Da. Marô - Fomos invadidos em 6 de janeiro de 1994 – a primeira fazenda da região a sofrer violência . Ingenuamente, confiamos na Lei, esperando a desocupação e reintegração de posse de nossa propriedade. Acreditávamos haver justiça para proteger as vítimas, não os bandidos. Afinal, pensávamos, se um ladrão entra em nossa casa, tudo o que precisamos fazer é chamar a polícia. E se for apanhado em flagrante, o ladrão segue diretamente para a cadeia. Mas se um grupo organizado de "sem-terra" – uma quadrilha de ladrões, na maioria das vezes – invade sua fazenda, a lei, curiosamente, concede a essa quadrilha benesses jamais imaginadas.

P – Por exemplo...
D. Marô -  Eles são notificados pessoalmente por um oficial de justiça a comparecer perante o Juiz. Via de regra, apenas um deles se apresenta. O juiz conversa com ele, avisa-lhe que estão todos intimados a deixar a gleba, e previne-o de que, se voltarem a invadir, serão considerados infratores e sujeitos a prisão.

No dia seguinte, se não for sábado, domingo ou feriado -- pois "sem-terra" não pode ser "despejado" em dia de descanso --, eles serão retirados da área invadida por uma força policial. Foi o que aconteceu em nossa fazenda. Os esbulhadores foram despejados por ordem judicial. Mas já na semana seguinte, à noite, voltaram a invadir. - Para plantar - Não!  Para destruir... Queimaram a ponte que ligava a região da sede com a área invadida. A Justiça abriu inquérito, fotografou  os escombros da ponte mas,  curiosamente, não encontrou nenhum autor do delito. E não conseguiu investigar, em uma cidade de 5.000 habitantes, quem havia participado da incursão de vandalismo. E nada aconteceu.

P – Houve ameaças ou mesmo agressões contra a Sra. ou contra membros de sua família?
Da. Marô – E quantas! Tentamos resistir até fevereiro de 1996. Nesse ínterim, meu marido foi gravemente baleado no rosto por um "sem-terra" escondido atrás de um tapume de madeira, em plena cidade (foto ilustrando o tapume). Todos conheciam o autor da tentativa de homicídio. Abriu-se inquérito, mas o culpado continuou foragido e, mais uma vez,  nada aconteceu. Hoje ele circula livremente pela cidade.

E a destruição da fazenda continuava. A casa de nosso serrador foi queimada, a serraria foi semi-destruída para, no mês seguinte, ser inteiramente queimada. Seis empregados nossos foram feitos reféns, sendo  um deles baleado. Novo inquérito, e ainda mais uma vez nada aconteceu!

A voraz destruição não parava. As duas casas de alvenaria da área invadida foram destruídas a marretadas. O curral foi queimado. A mata (atenção, entidades protetoras do meio ambiente!) ardia em chamas e eu, à distância, sofria com aquela devastação sem nada poder fazer.

Pedimos ajuda ao IBAMA, à Justiça e à Polícia. Sem nada conseguirmos, escrevi uma primeira carta ao Presidente Fernando Henrique Cardoso. Depois de cinco meses, recebi telegrama dizendo que o assunto havia sido encaminhado ao Ministro da Justiça. Recebi, dias depois, carta do Secretário do Ministério avisando-nos que o assunto seria de competência do Secretário da Justiça do Tocantins, e que a matéria já havia sido enviada a ele. Pela enésima vez, nada aconteceu!

P – Os invasores agiam espontaneamente ou eram insuflados por alguém?
Da. Marô - Nesse período, o líder da invasão -- hoje sei que não era um simples trabalhador rural, e sim um ativista treinado, que  fingia nos prestar serviços, mas seguia instruções dos organismos que o insuflava  -- foi assassinado dentro de nossa propriedade. Tal líder morava na cidade e mantinha um barraco de palha de babaçu dentro da área invadida. 

Foi baleado pela frente, quando se encontrava em companhia do atual Presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, ferido na ocasião, e declarou à Polícia que, enquanto caçavam, terem encontrado dois empreiteiros medindo uma cerca na fazenda. Conversaram com eles e foram tomar um café no barraco. Seguiam em fila indiana, o líder à frente, o declarante logo atrás, os dois empreiteiros fechando a fila. Declarou não saber quem os baleou, pois os tiros partiram da mata. Essa versão foi a mesma que ouvimos dos empreiteiros.

Então, a Comissão Pastoral da Terra – a já conhecida CPT – ligada à CNBB, apareceu! Pela primeira vez, uma entidade de renome tomava parte naquela invasão que até então tentavam fazer parecer fruto espontâneo da natureza. A CPT mandou  um advogado a Colméia, fez pressão na capital do Estado a fim de conseguir um delegado especial para apurar o caso. A força especial, composta de um delegado e dois agentes, chegou exatamente nos dias em que estávamos na cidade para os exames médicos do meu marido que, desde o atentado de morte sofrido, nunca mais teve a pressão arterial estabilizada e terminou por sofrer um enfarto. 

P – Com a entrada da CPT em cena, as coisas amainaram?
Da. Marô – Pelo contrário. Os "experts"  fizeram coisas muito "especiais". Prenderam para investigação três empregados nossos – um vaqueiro, um tratorista e um mecânico do tipo faz-tudo. Levaram-nos até o rio e os torturaram naquilo que chamam "banho-de-jacaré", que consiste em manter com a cabeça dentro d`água a pessoa até o extremo limite de sua resistência, retirando-a, então, para novo interrogatório... 

O delegado acabou arrancando a "confissão" do mecânico, através de alguns "banhos-de-jacaré". Mas em seguida, no inquérito judicial, o mesmo negou sua participação no crime, sendo inocentado em júri popular.
Esse mesmo delegado chegou a dizer em um bar da cidade que deveria ter levado até o rio, não os empregados, mas o meu filho, pois do "mocinho eu arrancaria o que quisesse...".  Dessa vez, depreende-se que houve inquérito e que... algo aconteceu.

P – Que conseqüências tudo isso trouxe para sua família?
Da. Marô - Eu, mãe, já vinha recebendo ameaças telefônicas contra a vida do meu filho. Quando a ameaça partiu da autoridade policial, não resisti: implorei-lhe para que deixasse a fazenda, e ele, mais do que contrafeito, terminou por atender-me. 
Entendo que para os instigadores dos "sem-terra" poderia parecer mais fácil ameaçar meu filho-jovem, agrônomo, que tem por hábito e educação tratar com cortesia a todos os que dele se acercam. Certamente, confundiam cortesia com covardia! 

O policial, porém, apresentando o mesmo ponto-de-vista sem sequer conhecer meu filho, deixava transparecer claramente que mantinha vínculos com pessoas ou entidades ligadas aos "sem-terra", uma vez que parecia muito bem informado sobre quantos éramos e como éramos.

O erro dos informantes foi  apoiar-se nas aparências. Consideraram que meu marido -- que diz o que pensa a todos e sobre todos os assuntos, trabalhava como se tivesse 18 anos e tinha uma aparência de "fortão" -- seria homem "muito perigoso!" Que eu, sempre em casa, aparecendo em cena apenas nas dificuldades maiores, seria uma insossa dona-de-casa, e que, portanto, meu filho teria que ser o alvo mais fácil.

Com o carinho de mãe, retirei o alvo deles, saí da minha "concha" e passei a enfrentar todos os assuntos estressantes em que meu marido, enfartado, poderia ser poupado. Para tal, fui registrando os acontecimentos, datas, medidas tomadas etc. 

P – Com isso seu filho escapou ileso?
Da. Marô - Meu filho, afastado do trabalho que adorava, longe das criações a que se dedicava, sem poder participar do nosso esforço para manter a nossa propriedade, passou a se sentir inútil, julgando-se culpado por deixar os pais na linha de frente ao retirar-se do campo das operações. Para ele, uma posição absurda. Tudo isso o levou a um estado depressivo agudo, tendo que consultar médicos e psicólogos. 

Depressão essa que ainda não está inteiramente controlada, o que me deixa, como mãe, em constante estado de tensão. Meu filho... minha vida! Sei que meu filho está infeliz, que nunca mais conseguiu estar de bem consigo mesmo depois de deixar de trabalhar na fazenda que era nossa... Fisicamente ele saiu ileso, mas psicologicamente ficou muito prejudicado. E eu, como mãe, posso estar bem!

Meu marido seguia  enfrentando todas as dificuldades com uma disposição e ânimo invejáveis. Quando tive de convencê-lo de que, sem o nosso filho, não fazia sentido resistir às investidas do INCRA para encontrar e classificar como improdutiva uma fazenda que, por ocasião da invasão, contava  com 5.000 cabeças de gado e dava emprego para 18 a 20 famílias, ele se mostrou reticente, mesmo incrédulo de que eu estivesse capitulando diante da luta.

Só depois de muito esforço consegui aceitasse que aquilo que nos era mais precioso – o sentimento de tranqüilidade do dever cumprido – já havia sido roubado para sempre de nossas vidas. E eu, como esposa, poderia estar bem!?

P – E como prosseguiram as coisas depois de tantos problemas?
Da. Marô - O INCRA avaliou a fazenda em fevereiro de 1996, legalmente,  acompanhado por um representante nosso e por um representante dos "sem-terra". Cumpre dizer que jamais entendi por que a lei exige tal presença. Parece-me como se alguém tivesse que levar o presenteado sempre que fosse lhe comprar um presente...
De nossa parte, continuamos morando lá, é claro, mas esperando a desapropriação para qualquer momento, e portanto sem nenhuma boa perspectiva para a vida, e sobretudo para a nossa segurança.

No dia 13 de junho de 1996, encontrava-me em São Paulo para cuidar de minha neta enquanto minha filha e meu genro participavam de um Congresso, quando recebi  a notícia de que meu marido estava preso. Ninguém sabia o por quê. Nosso advogado de Colméia dizia-me apenas que ele havia sido preso na balsa do Rio Tocantins, quando se dirigia a Palmas. Fui para lá imediatamente. O advogado não conseguiu prisão especial à qual ele  tinha direito, por ser diplomado pela USP, em decorrência de não existir alojamento no quartel da PM local.

P - Mas neste caso, seu marido não poderia ficar em prisão domiciliar
Da. Marô – Com efeito, seria a alternativa legal, mas a Juíza não concordou. E, por isso, um engenheiro agrônomo de 64 anos, enfartado, teve que ficar 48 dias em uma cela que não possuía sequer uma cama ou uma cadeira. 

A promotora que autorizou sua prisão relatou à revista "Exame", em reportagem publicada na edição no. 669, de 26 de agosto de 1998, que meu marido "José Francisco de Freitas teve direito a cela com banheiro separado, dentro dos limites de conforto que uma cidade pequena pode oferecer". (Seu predecessor na dita cela foi Vicente Rivera, o Vicentico, filho de um dos chefes do narcotráfico colombiano. Não vou comentar a "honra" de meu marido ter ocupado a mesma cela do colombiano. Aliás, foi ele quem fez a "decoração" das paredes da cela como mostra a foto, pois ela fala por si.

O mais importante é explicar o motivo da prisão. Nosso empregado mecânico – aquele mesmo que tomou "banho-de-jacaré" -- iria a júri popular, acusado da morte do sem-terra no dia 10 de julho de 1996. Dias antes, o agente de plantão na cadeia de Colméia recebeu (sic) um telefonema anônimo de alguém que se dizia muito amigo da polícia e que avisava que iriam entrar na delegacia e libertar o preso. Em nenhum momento os nomes do meu marido e do meu filho foram citados, nem pelo "anônimo" nem na declaração oficial do agente à promotora.

Curiosamente, tal agente já havia "desaparecido" em 8-6-96, quando tentei contatá-lo. Baseada nesse "documentário" do telefonema anônimo, em "indícios" de clamor público e inquietação popular, a promotora requereu e a juíza concedeu mandado de prisão contra meu marido e meu filho, no dia 7 de junho de 1996. Meu marido esteve na fazenda durante esse período – dias 7, 8, 9, 10, 11 (dia em que se deu o julgamento do mecânico) e 12; só saiu da fazenda no dia 13, para ir a Palmas. Não houve qualquer distúrbio da ordem.
A polícia nunca procurou pelo meu marido, nem em casa nem nas muitas vezes em que ele foi a Colméia, e ninguém suspeitou jamais da existência de tal medida! A prisão deu-se quando meu marido deixava a balsa do Rio Tocantins, portanto fora da jurisdição de Colméia, sem autorização do Juiz da Comarca de Miracema.

Durante 45 dias percorri  50 quilômetros, da fazenda até a cadeia, levando roupas, comida, livros, objetos que pudessem tornar a vida de meu marido mais suportável naquele cubículo, e , sobretudo, fazendo-lhe companhia. Fazia o mesmo percurso de regresso, à noite, para lavar roupa, passar, preparar comida (claro que a essa altura eu não tinha ninguém para ajudar-me, pois quem trabalharia numa fazenda onde o dono está preso na cadeia) e dormir em total exaustão para recomeçar tudo no dia seguinte.

P – Mas tudo isso parece configurar uma enorme tragédia...
Da. Marô – Não só parece, mas é a realidade. Na Justiça... tudo parado, pois julho é mês de férias forenses. Só no dia 2 de agosto fomos para uma casa na cidade, que eu tive que alugar com dinheiro emprestado, fazer a mudança no limite das minhas forças, porque a juíza só concedia a  prisão domiciliar se apresentássemos prova de residência na cidade. Na mesma reportagem, já citada, da revista "Exame", a promotora diz: "Não havia como controlar os passos dele (meu marido) na fazenda". Ridículo total. Por acaso pensaria ela que se quiséssemos "fugir" de Colméia, à noite, de carro, alguém nos impediria.

A prisão domiciliar continuou até o dia 2 de outubro de 1996, quando finalmente o Tribunal de Palmas apreciou o pedido de habeas corpus e revogou o mandado da juíza.

Enquanto estávamos em Colméia, correu boato de que a juíza havia "doado" nossa fazenda aos invasores. Claro que ela não fez isso, nem teria autoridade para tanto, mas o boato ajudou, e muito, os invasores a nos enxotarem da fazenda. 

Os grupos que tentavam, esporadicamente, ações de vandalismo na área ainda não invadida (roubo de implementos, corte de cercas etc), aproveitaram-se do boato para queimar toda a fazenda (as fotos ilustram o tamanho da destruição). Impediram que os poucos empregados que nos restavam tratassem dos porcos, ordenhassem as vacas, cuidassem das reses apascentadas num pasto na frente da fazenda que eu havia alugado para obter algum dinheiro para sobreviver.

P – Antes de iniciarmos a entrevista, a Sra. se referiu a um atentado sofrido. Do que se trata?
Da. Marô - Quando eu tive de fazer a mudança para Colméia, considerei que "aquela" seria uma situação provisória e levei apenas o essencial. O forno para queima de porcelana, por exemplo, ficou na fazenda: ia lá algumas vezes por semana, sempre durante o dia e, quando tinha peças pintadas, levava-as para fazer a queima. No dia 17 de setembro de 1996, assim que virei o carro, deixando a estrada de asfalto em direção à entrada da fazenda, comecei a ser apedrejada por quatro indivíduos que se encontravam ao lado do mata-burro. Acelerei para passar pela porteira, que por sinal estava aberta excepcionalmente, tentando chegar logo à sede da fazenda. Para minha surpresa, a estrada estava bloqueada por pedras. A roda dianteira do carro quebrou, ficando eu exposta aos apedrejadores. Resolvi que sairia a pé, correndo até onde pudesse – eu tinha à época 59 anos... pode-se imaginar o tragicômico da situação!  Assim que saí do carro, fui atingida por uma pedra na cabeça. Caí, rolei pela estrada e, quando consegui me levantar, os quatro indivíduos corriam, ao longe, fugindo do local, pensando talvez  que eu tivesse morrido.

Caminhei como pude até o asfalto e pedi socorro, mas ninguém parou. Só ao escurecer consegui fazer sinais com o farol do carro e o nosso administrador veio em meu socorro. Na manhã seguinte fui à Delegacia de Polícia, onde foi lavrado o Boletim de Ocorrência e de corpo delito. 

Alguns dias depois encontrei o delegado e perguntei-lhe se havia identificado os culpados. Respondeu: "Fui a Goiani e ninguém, lá, diz ter apedrejado a Sra." Nesse inquérito, mais uma vez, nada aconteceu.

P – Esse atentado deixou seqüelas?
Da. Marô - Como conseqüência  da queda, passei a ter dores muito fortes na região sacro-lombar e na perna direita. Com todas as complicações, com marido em prisão domiciliar, morando em uma cidade que não possui sequer Raio X... tomei centenas de analgésicos. Após certo tempo, comecei a cair de maneira inexplicável. Caía sem ter tropeçado ou escorregado em nada.
Por fim, com dores terríveis, passei 13 dias inteiramente imobilizada num hospital. Os exames mostraram que fiquei com um fragmento ósseo alojado entre duas vértebras, o que, por sua vez, provocou dois cistos. A pressão de todos esses "corpos estranhos" é a causa da dor e da total insensibilidade no meu pé direito e na parte externa da perna. A cirurgia a que poderia submeter-me é de alto risco, podendo até não voltar a caminhar. 

E assim vou vivendo, descendo as escadas com o pé esquerdo na frente, sempre com um calçado leve, sem poder usar sapatos. E não posso mais dirigir, pois não sinto o acelerador, nem o freio.

P – E como ficou o Dr. José Francisco, seu esposo, em face de toda essa perseguição?
Da. Marô - Quanto ao meu marido... eu esperava alguém em completa depressão, depois de suportar estoicamente os 48 dias de prisão em condições que as fotos descrevem  mais do que mil palavras.  Claro que a prisão domiciliar constituiu uma "melhora" no processo das injustiças de que ele era vítima (pelo menos livrava-se do calor da cela, em junho-julho, no Tocantins). Mas não havia razão para o bom humor que ele demonstrava, quando ainda privado de sua liberdade e com sua fazenda sofrendo atos diários de vandalismo.

O que eu não sabia é que ele já estava sofrendo um terrível processo chamado Síndrome Bipolar (o que antigamente chamava-se maníaco-depressivo). Enquanto eu me preparava para conviver com alguém em estado de depressão, para dar-lhe ânimo e incentivo, ele subia rapidamente os degraus no lado oposto da escala de comportamento: a euforia. Não acho que nada possa ser mais difícil: a pessoa com quem eu vivia há 40 anos passou a ter reações completamente imprevistas, procedia como um estranho.
 
Quando por fim consegui levá-lo ao médico, ela já não dormia mais, passava os dias em movimentação incessante, falava e andava sem parar. Os cacos da nossa vida que eu tentava juntar ficaram irrecuperáveis – e eu não tinha qualquer possibilidade de ajudá-lo psicologicamente porque, na mente de um maníaco-depressivo, ele é que está bem, sente uma perspectiva otimista e correta das situações e o resto do mundo é composto por pessoas derrotistas!
Hoje, em tratamento com lithium, ele está bem, embora tenha que ser mantido sob constante controle, com exames médicos periódicos.
 
Para complicar a situação, continuamos tendo que manter advogado acompanhando o morosíssimo processo de desapropriação pelo INCRA. O dinheiro que recebemos pela desapropriação de 1/3 de nossas terras consumiu-se com o pagamento de honorários advocatícios com que tivemos (e ainda temos!) que arcar, com o pagamento de parte das dívidas contraídas para reter a posse da fazenda, quando de lá já não conseguíamos tirar qualquer renda , pois o gado vagava solto pela região.  Acrescente a isso as despesas médicas com os problemas de saúde que meu marido e eu passamos a sofrer como herança da ação dos sem-terra e de seus ideólogos...

P – Qual o papel do INCRA em tudo isso?
Da. Marô – O pior possível! Hoje, esperamos pela desapropriação e pagamento dos 2/3 da fazenda, totalmente invadidos. O INCRA protela o pagamento alegando que houve muitas super-avaliações  no Tocantins e que todos os processos tiveram que ser revisados. Não chego a entender como... Quando fomos forçados a sair da fazenda, um técnico do INCRA, especialista em gerenciamento de conflitos, esteve lá e dividiu a área – sem pagar, sem ter a posse legal da terra!!! -  entre quatro grupos de invasores que com ele se reuniram na Casa paroquial de Colméia (uma espécie de filial da CPT. Fato também citado, com a versão do técnico, na revista "Exame"). Esses grupos, ou venderam os seus "direitos" sobre os  "seus" lotes, ou alugam nossos pastos.

A depredação das benfeitorias, a destruição de cercas para venda de arame e estacas, a venda de madeira, são os tipos de "trabalho" realizados pelos que, de alguma forma, conseguiram ser considerados pelo INCRA como mais aptos  do que nós para serem proprietários de terra. Sim, do que nós, que as compramos e que fomos, durante 40 anos, fazendeiros e só fazendeiros.
Quando a fazenda estava sob nossos cuidados, o INCRA vistoriou e encontrou um valor (que não nos foi comunicado, meses depois é que finalmente vimos as planilhas que os técnicos haviam elaborado). Ao considerarmos muito baixas certas avaliações, ouvimos dos técnicos, em Palmas, que tudo tinha sido feito "dentro dos parâmetros do INCRA". Hoje, depois da permissividade das autoridades diante dos atos de vandalismo ali praticados, diante da complacência do INCRA -- que até colocou um sem-terra para viver em nossa casa... --, qual será o valor das benfeitorias, por exemplo. Quanto vale uma casa com o forro arrancado, sem torneiras, sem eletricidade. Quanto vale uma cerca queimada, uma porteira quebrada ou um curral destruído?

O que o INCRA nos deve, no momento, terá que ser utilizado para quitar nossas dívidas, para financiar algum empreendimento para o meu filho que está em idade de reconstruir sua vida, e para permitir que meu marido e eu, que já passamos da idade de aposentadoria, consigamos ter uma velhice digna.

P – A Sra. gostaria de acrescentar algo para nossos leitores?
Da. Marô – Sim, que todos se previnam contra os invasores, contra a ação da CPT e a respeito das "medidas" tomadas pelo INCRA. Será que esse dinheiro que eu talvez receba, será suficiente para pagar pela carreira frustrada de um jovem agrônomo, pelos seus problemas de saúde, por esse hiato de humilhação na vida do meu filho* Será esse dinheiro suficiente para pagar pela minha limitação física, por não poder mais dirigir, ou pelas dores constantes na coluna que terei de suportar ou mitigar com medicamentos cheios de efeitos colaterais desagradáveis. Ou poderá ele pagar pela condição de cardíaco do meu marido (que nunca fumou nem bebeu), pelo seu tratamento contínuo, até o fim da vida, do distúrbio bipolar o qual foi acometido!

E onde fica a humilhação. Quem responde pelos danos morais que todos nós ainda sofremos e vamos sofrer.



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