Entrevista com Da. Iracema Calvo Paes

Dª Iracema Calvo Paes, proprietária da Fazenda São Domingos, no Pontal do Paranapanema. Teve sua propriedade invadida inúmeras vezes e por fim desapropriada pelo INCRA. Obteve liminar contrária ao decreto desapropriatório.

Informativo Rural - Dª Iracema, como a Fazenda São Domingos veio a ser propriedade da família?
Dª Iracema - Quando meu sogro veio de Barretos para Presidente Prudente, em 1938, comprou esta fazenda e a colocou em nome do filho, que tinha então sete anos, hoje meu marido. E a fazenda foi desbravada no lombo do burro, eram quinze dias de viagem... eles abriam estradas, porque era mato, inclusive moravam em barracas de lona. Minha sogra chegou até a matar onça. E era ela quem fazia tudo, cozinhava para peões. Uma vez ela levou um tombo, quebrou o braço e então amarraram o braço dela com uma madeirinha, porque não havia condições de ir se tratar, era lá mesmo que ficava, e se morresse, morreria lá mesmo.
Com o açúcar ela fazia a rapadura, usava a gordura de porco, quer dizer era tudo produzido lá mesmo. Meu sogro foi quem fez a primeira balsa ligando São Paulo ao Paraná.

IR
- Como foi o começo do cultivo da fazenda?
Dª  Iracema - Com o tempo, meu sogro foi plantando algodão. Chegamos a ter ali quatrocentos arrendatários. Hoje muito deles são prósperos produtores no Paraná. A cultura era para subsistência, porque era difícil. Galinha, tudo que precisássemos para alimentação, era ali mesmo. E com o tempo, meu marido começou a criação de gado, por volta de 1964.

IR
- Como foram as invasões, e que conseqüências tiveram para a família?
Dª  Iracema - A primeira invasão foi no dia 7 de Outubro de 1995, de sexta para sábado... geralmente eles invadem numa sexta-feira porque o Fórum não funciona...  Foi a pior destruição... 60 quilômetros de cerca destruídos... tudo lasca de aroeira, de arame liso, os caminhões encostavam e levavam embora para vender no Paraná. Morreram duzentas vacas pisoteadas, naquela correria, no barulho de trator e gente correndo. A boiada ficou toda na estrada perdida...foi quatro horas da manhã...mas a imprensa  estava lá...a televisão estava lá filmando tudo...
Nós perdemos cerca de quinhentas cabeças, e foram quarenta invasões grandes, umas treze pequenas. Todo fim de semana eram cerca de cinco a seis cabeças que eles levavam para os acampamentos... deixavam as barrigadas... levavam a carne... nossa casa foi incendiada no dia 11 de abril de 1996. Destruíram um curral redondo muito bonito que inclusive a Rede Globo chegou a filmar. Todas as cercas e cochos... tudo foi totalmente destruído... quarenta porteiras... tudo foi roubado... e o que não foi roubado, foi queimado ou destruído.  Temos duzentos boletins de ocorrência...

IR
- Como foi o papel do INCRA? 
Dª  Iracema - O Incra sempre está por detrás... os sem-terra invadem e já mandam o Incra vir fazer vistoria para desapropriar.
O laudo, agora em 97, considerou improdutiva a fazenda. Eu tenho os papéis que mostram que ela sempre foi altamente produtiva. Mas com as invasões, a gente não tinha condições de produzir nada, eles vem roubar galinha até na porta de casa. Nós não podemos mais ter gado lá, eles roubam tudo. Então o laudo foi em cima das invasões, eles invadiram e tornaram improdutiva, e o Incra vem e desapropria.

IR
- Qual a situação em que se encontra a família em face desses acontecimentos?
Dª  Iracema - A família sofreu muito. Se não fosse a Fé que a gente tem em Deus, já teríamos naufragado... é telefonemas anônimos falando que vai seqüestrar... que vai matar... Se o marido não chega até uma hora da manhã a gente já pensa que seqüestraram...então é uma guerra de nervos que eles fazem com a gente. Depois, a turma do MST que liga cobrando dinheiro da gente como garantia de não invadir... até isso tem. Então, dez... quinze mil...eu não te invado... me paga a garantia...  Nós sofremos muito com isso... estamos arrasados... machucados... acabados... meu marido envelheceu dez anos...está aí cheio de doenças.
Tudo fica difícil porque a gente tem muito gasto com advogado...com os estudos das crianças...tem empregados... tudo para pagar...então o dinheiro falta...então o nível social da gente abaixa muito. Eu tenho um carro que já tem sete anos e não consigo trocar... 

IR
- Nós temos notícia de que o marido da Sra. teve uma proteção muito especial de Sta. Terezinha, no desastre que ele sofreu no dia da desapropriação.
Dª  Iracema -  Ele sofreu o acidente no dia 17 de Setembro de 1997, que foi no dia em que Presidente desapropriou. Na madrugada, ele vinha voltando da Fazenda... já sabia da desapropriação, aí ele capotou, a camionete voou duas vezes, quebrou três costelas, perfurou o pulmão, e ele saiu andando ainda dois quilômetros, para pedir socorro. A camionete acabou, só a porta do lado dele que ficou inteira, o resto acabou; sangue para todo lado, a bateria ficou a cinqüenta metros de distância.
Vendemos para o ferro velho. E eu acredito muito que ele não ter morrido foi um milagre de Santa Terezinha, Dentro do porta-luvas sumiu um revólver, sumiu notas de boi que ele tinha, os documentos, sumiu tudo... só ficou o tercinho de Santa Terezinha que eu dei para ele, e um santinho, uma foto de Santa Terezinha, ficaram dentro. Inclusive eu sinto um perfume dentro de casa antes das invasões... é um aviso não é?

IR
- O Pontal do Paranapanema sofreu muito com as invasões...
Dª  Iracema - O Pontal era considerado a maior região criadora de gado do Brasil. Na nossa cidade havia considerável número de frigoríficos... todos foram embora. Com essas invasões, ninguém quer investir aqui. Você passa em Mirante do Paranapanema, Teodoro, não tem mais banco, as lojas comerciais fechadas, o comércio está quebrado. Mesmo em Presidente Prudente você passa pelo calçadão e é só "aluga-se", "aluga-se", tudo fechando, tudo quebrando, ninguém investe aqui, é uma vergonha. Aqui é o esgoto do Estado... Toda semana são presos bandidos violentos nesses acampamentos... é esconderijo de bandido mesmo...    Então nossa situação é essa... muitos indo embora...ninguém investe... acabou nossa região... É uma realidade muito triste...é uma coisa que dói o coração da gente sentir isso aqui no Pontal...

IR
- Qual o pronunciamento da Justiça a respeito da desapropriação?
Dª  Iracema - A desapropriação foi assinada no dia 17 de setembro de 1997. Mas houve uma liminar concedida pelo Supremo Tribunal Federal, em sede de Mandado de Segurança, cancelando o decreto presidencial expropriatório. O mérito do Mandado de Segurança ainda não foi apreciado.

IR
- O que a Sra. diz da ação da esquerda católica na região?
Dª  Iracema - Eu sei que teve um Bispo ou um Padre de uma localidade próxima que esteve aqui em nossa região, inclusive ele apareceu na televisão com a Bíblia na mão, incitando o povo à invasão. Logo nas primeiras invasões eu me lembro claramente disso.
IR -  A senhora tem uma mensagem final para nossos leitores?
Dª  Iracema - Isso futuramente pode até vir a acontecer na cidade, como está acontecendo... O povo tem que tomar muito cuidado em todas as classes sociais... não é só o fazendeiro... o povo tem que aprender e não abaixar a cabeça...igual a cordeirinho. E muita Fé em Deus... porque sem Ele não dá.


Voltar