A vez do biodiesel

Tito Lívio Canton*

   
Começam a frequentar o noticiário econômico matérias jornalísticas sobre a adição de biodiesel ao diesel comum e as expectativas de exportação de biocombustíveis do Brasil para alguns países que, por necessidades ambientais, cogitam algum tipo de mistura, tal como a do álcool à gasolina. O álcool, anidro para mistura, hidratado como combustível alternativo e agora como componente de misturas de tanque para os motores ditos flexíveis, é conhecido e comercializado há mais de 30 anos. A ciência aplicada deu suporte ao velho “rabo-de-galo” que os motoristas já faziam ao abastecer seus veículos com proporções de gasolina e álcool que seu carro podia suportar.

   O desenvolvimento de sistemas modernos de alimentação permitiu que os atuais motores de automóveis identificassem a proporção de dois, futuramente de três ou quatro, combustíveis sem prejuízos ao seu funcionamento. O súbito aumento na produção desses veículos teve como consequência o crescimento da demanda por álcool combustível e isso refletiu no preço nas bombas. É a velha e irrevogável Lei da Oferta e Procura.

   Mas, o que é o biodiesel? Biodiesel é o nome de um combustível alternativo limpo, produzido por recursos renováveis e não contém petróleo, mas pode ser misturado em qualquer proporção ao diesel oriundo da refinação do petróleo ou usado puro. Pode ser utilizado em motores do ciclo diesel mais recentes sem nenhuma modificação. O biodiesel é um combustível simples de se usar, biodegradável, não tóxico e livre de enxofre e cadeias aromáticas.

   O biodiesel não é o mesmo óleo vegetal que nós conhecemos e usamos em casa para cozinhar. É dele obtido, entretanto, pelo processo químico chamado de transesterificação, no qual a glicerina é separada da gordura do óleo vegetal, originando dois produtos: o biodiesel e a glicerina, outro produto também muito usado pela indústria química, como por exemplo em sabonetes.

   O biodiesel possui algumas vantagens comparativas tanto sobre o diesel de petróleo como o álcool da cana. O biodiesel é bom para o meio ambiente porque é feito a partir de recursos naturais renováveis e tem menores emissões se comparado ao diesel de petróleo. É menos tóxico que o sal de cozinha e degrada mais rapidamente do que o açúcar. O uso do biodiesel diminui a nossa dependência de óleo importado e contribui para a economia do país.

   No caso do Brasil, a pequena mistura de biodiesel ao diesel de petróleo, inicialmente sugerida em proporções de 2% a 5%, produzirá efeitos interessantes sobre a agropecuária por todo o território nacional, pois, enquanto o álcool combustível é oriundo de uma só cultura agrícola, a cana-de-açúcar, o biodiesel pode ser obtido de diversas culturas, de características agronômicas diferentes e passíveis de serem plantadas nas mais diversas condições de clima, solo e manejo.

   Assim, no norte do País, o óleo que pode originar o biodiesel é o óleo de palma, obtido a partir do dendê – cultura perene, no Nordeste, da mamona e no Centro-Oeste, Sudeste e Sul das lavouras tradicionais das oleaginosas como soja e também do aproveitamento da semente do algodão, além de eventuais culturas de safrinha. Óleos mais indicados para a alimentação humana, como canola e girassol, por serem melhores para a saúde, aumentariam a sua proporção no consumo humano, ocupando espaço de óleos tais como de amendoim, algodão e mesmo o da soja que seriam destinados à combustão.

   Essa flexibilidade permitirá melhores fluxos de produção, colheita e esmagamento e distribuição, eliminando-se picos que exigem muita armazenagem. Evidentemente, o país se tornaria maior produtor e exportador de farelos vegetais para a nutrição animal do que já é e a farta disponibilidade desse insumo provocaria alterações na nossa produção de carnes. O novo mercado e opção de uso para essas oleaginosas traria preços firmes ao nosso produtor rural, embora atrelasse o preço desse combustível ao do mercado internacional das commodities, mas imune à situação instável do oriente médio.

   Enfim, apesar de dificuldades momentâneas que surgiram nesta última safra, por problemas fitossanitários e de comércio exterior, a perspectiva de mudança na própria mudança matriz de combustíveis pela introdução dessa nova opção agrícola, abre enormes possibilidades ao agronegócio em todo o país e em MS em particular.

*Engenheiro agrônomo
Fonte: Correio do Estado



Voltar