No Pontal, acampamentos fantasmas

No Pontal, acampamentos fantasmas

Barracos vazios e em ruínas; só no dia de cestas básicas há movimento

José Maria Tomazela

O único sinal da presença humana no Acampamento Sul Mineira, em Presidente Epitácio, no Pontal do Paranapanema, é um canteiro recém-plantado com batata doce. Os 18 barracos, na margem direita da SPV-035, que liga a cidade a Teodoro Sampaio, estão fechados, alguns com cadeado na porta, outros com marcas evidentes de abandono. Na última quinta-feira, havia água em duas torneiras abastecidas por tambores plásticos e algumas galinhas que ciscavam o solo seco, famintas.

 

No cadastro do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), usado inclusive para a distribuição mensal de cestas básicas, o Sul Mineira tem 36 famílias acampadas. Fora do papel, é um acampamento fantasma, como dezenas de outros espalhados pela região que mais recebe investimentos da reforma agrária no Estado.

 

O coordenador regional do Movimento dos Sem-Terra (MST), Valmir Rodrigues Chaves, reconhece que está perdendo acampados. Ele atribui a redução ao desestímulo com a reforma agrária que não anda e à dificuldade de mobilizar um pessoal que, na periferia das cidades, é atendido pelas bolsas e outras benesses do governo.

De acordo com os números do Incra relativos a 2007, o Pontal tem 54 acampamentos com 5.343 famílias sob a lona, na expectativa de ganhar um pequeno sítio de até 20 hectares. Só em Presidente Epitácio, são 10 acampamentos com 1.275 famílias.

 

Entre eles, o Jahir Ribeiro, do MST, que já foi o maior do País com mais de 4 mil famílias. No papel, o acampamento continua relativamente grande, com suas 140 famílias. Na prática, transformou-se numa pequena favela com barracos esparsos na periferia de Epitácio.

 

A coordenadora Francisca Ângela dos Santos Souza, de 40 anos, uma das líderes do MST na região, se orgulha de ter conseguido segurar uma parte dos acampados. "Temos 50 famílias que ficam aqui dia e noite", diz. "Elas não têm para onde ir, pois não possuem casa na cidade." A própria líder mora ali com o marido Francisco Bezerra de Souza Filho, 43, e os filhos Cristiano, 19, Jéssica, 16, e Gilberto, 14. Ela conta que a maioria das pessoas voltou para a cidade, ou por ter conseguido emprego ou para receber a cesta básica, a Bolsa-Escola ou o seguro-desemprego. "Como a terra demora pra sair, o pessoal busca outra opção."

 

Muitas só aparecem quando chega a cesta básica. Essa "vantagem" de ser assentado - receber a cesta todo mês - já não existe, diz a líder. "O pobre da cidade recebe todo mês, já o acampado só de vez em quando."

 

Houve casos de acampados que venderam os barracos para integrantes do Movimento de Libertação dos Sem-Terra (MLST). Francisca lembra que o acampamento tinha boa estrutura: água encanada, escola, atendimento médico. A água vinha de um poço artesiano e era bombeada. "Um ex-líder, que já foi expulso do movimento, vendeu a bomba e os encanamentos e deu um golpe no pessoal."

 

O acampamento minguou também porque muitos sem-terra foram trabalhar nas usinas de cana-de-açúcar. "Aqui tem gente que se sujeita a levantar às 2h30, pegar o ônibus às 3 e ralar até a volta, às 9 da noite. É um regime de escravidão." Francisca, cozinheira, e o marido, acampados há quase 10 anos, continuam desempregados.

 

O acampado Valdir José Brasil, de 65 anos, é um dos que permanecem no Jahir Ribeiro. Sua mulher, Antonia Silva, voltou para a cidade. Acampado há seis anos, ele também já está com "um pé" fora da luta pela terra: conseguiu emprego como vigilante e passa as noites no trabalho.

 

A família de Oleni das Dores Rocha Marques, de 42 anos, está dividida. Enquanto ela mantém o barraco e vai ao acampamento todo dia, a filha Adriana Rocha Marques, de 23, prefere garantir na cidade a Bolsa-Escola para os 4 filhos.

 

Só quatro barracos estão ocupados no Acampamento Ponte Funda, em Presidente Epitácio, entre eles o de Dionísia Ferreira Amorim, de 68 anos, 15 como sem-terra. Dos seis filhos, apenas Júlio Amorim, de 30, mora com ela no barraco sem energia. As notícias chegam pelo rádio de pilha. "Ouço a Voz do Brasil", diz Amorim, que trabalha nas fazendas a R$ 20 por dia.

 

CARRO NOVO

 

O líder do Movimento Terra Brasil, Ailson Neres Barbosa, que prefere o conforto da cidade e vai ao acampamento de carro novo, diz que ninguém precisa ficar sempre no barraco. "As pessoas precisam viver." Mais importante, segundo ele, é comparecer quando for convocado "para a luta". Barbosa reclama que a cesta básica não é entregue desde janeiro.

 

Mesmo os acampamentos mais badalados, como o Dona Carmem, em Teodoro Sampaio, tem muitos barracos fechados, assim como o José Maria, em Pirapozinho. O Incra contabiliza 180 famílias no Dona Carmem e 60 no José Maria, mas o número de barracos corresponde à metade. Em Piquerobi, o Acampamento Piquerobi aparece na lista do Incra com 53 famílias. No local, restam dois barracos em ruínas e sem morador.

 

O esvaziamento afeta as ações programadas pelo movimento que dependem de contingente, como as ocupações. No "abril vermelho", o MST do Pontal fez uma única mobilização para apoiar a invasão de uma fazenda em Iaras. Por falta de homens nos acampamentos - a massa operacional - foi preciso buscar gente nos assentamentos. Chaves, o coordenador regional do MST, conta que o Pontal já teve 9 mil acampados. "Depois que o Lula entrou, perdemos 60% do pessoal." Ele conta que, na periferia das cidades, o pobre recebe mais atenção do governo do que no campo ou no acampamento, o que torna difícil mobilizar os sem-terra. "Pra eles tem bolsa de tudo quanto é tipo."

 

Fonte: OESP, Domingo, 27 de Abril de 2008 


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