A cubanização está destruindo a economia da Venezuela

CORONEL FALASTRÃO

Graças a Chávez, a Venezuela está se tornando uma nova Cuba: produção em queda, presos políticos e, agora, apagões diários

 

REVISTA VEJA - 04/11/2009

 

Carta ao leitor

Uma chance para Chávez

 

Por 12 votos a 5, a Comissão de Relações Exteriores do Senado brasileiro aprovou a entrada da Venezuela no Mercosul. A decisão precisa ainda ser ratificada pelo plenário da Casa, mas é quase certo que os senadores vão acompanhar o voto da comissão.

 

Com o apoio da Argentina e do Uruguai assegurado, a Venezuela esperará apenas o sim do Paraguai para obter a unanimidade necessária a seu ingresso no bloco comercial regional. A comissão ignorou o alerta feito pelo relator Tasso Jereissati: "Na Venezuela, jornalistas estão na prisão, os servidores públicos são obrigados a se filiar ao partido oficial, há presos políticos.

 

Estamos abrindo um precedente perigosíssimo. Além disso, em todas as disputas políticas, a Venezuela atuou contra o Brasil". Os colegas de Jereissati preferiram ater-se às vantagens econômicas. O comércio entre os dois países chegou a 5,7 bilhões de dólares no ano passado, com superávit de 4,6 bilhões em favor do Brasil. Pode aumentar ainda mais com a entrada da Venezuela no Mercosul.

 

O jornalista Duda Teixeira, de VEJA, foi à Venezuela ver de perto como funciona a economia de estado do novo sócio. Seu relato, que começa na página 74, pode ser resumido em um único e estarrecedor conjunto de dados. Desde que, há cinco anos, começou a cubanização da economia, a produção nas empresas venezuelanas estatizadas caiu 40%, enquanto o número de funcionários subiu entre 40% e 150%. Chávez não pode ser acusado de ter enganado o público. Em 2004, ele disse: "Produtividade e rentabilidade são conceitos do malvado capitalismo e do neoliberalismo".

 

Se forem essas as contribuições práticas e teóricas da Venezuela, o mais acertado mesmo seria dar ao regime de Chávez um sonoro não. Ocorre que Chávez não é a Venezuela. Como não há mal que dure para sempre, um dia o país vizinho vai retomar o caminho do progresso social e material. Desde que não se permita que aconteça o impensável – deixar o ditador venezuelano bolivarizar o Mercosul –, pertencer ao clube pode apressar a chegada desse dia.

 

As regras democráticas do bloco criam um óbvio constrangimento para Chávez. Nesse cenário otimista, o ditador descobrirá que melhor seria nunca ter entrado para um clube que o aceitasse como sócio.

Internacional

Nosso sócio é um desastre

Fomos ver de perto como funciona a economia do novo membro do Mercosul. O cenário é chocante. A cubanização da Venezuela já destruiu a produção de bens e alimentos

Duda Teixeira, de Cidade Guayana

 

Em cinco anos, desde que o coronel se declarou comunista, mais de cinquenta companhias de grande porte e 2,5 milhões de hectares de terra foram estatizados. Mais de 250 000 cooperativas foram criadas para substituir as empresas "burguesas". O resultado é desastroso. A produção das companhias nas mãos do estado caiu 40%, enquanto o número de funcionários duplicou. De todas as terras ocupadas, apenas 2% continuam a produzir. Das cooperativas criadas, 96% já foram desfeitas. Não se pode acusar Chávez de ter mentido sobre suas intenções. "Produtividade e rentabilidade são conceitos do malvado capitalismo e do neoliberalismo", disse o coronel, com sinceridade.

 

VEJA foi ver de perto o processo de cubanização em curso no país que aceitamos como sócio. Durante sete dias, uma equipe de jornalistas visitou indústrias e fazendas cubanizadas em oito cidades. Um caso exemplar é a Alcasa, fábrica de alumínio em Cidade Guayana, polo industrial a 530 quilômetros de Caracas. Em 2005, o controle da estatal foi entregue aos trabalhadores em regime de cogestão. A primeira providência deles foi realizar uma eleição para a escolha dos cargos de direção.

 

A título de preparação para os novos cargos, os eleitos receberam cursos sobre o "Pensamento econômico de Che Guevara" e de guerrilha, pomposamente rebatizada de "guerra assimétrica contra o imperialismo". Na visão do então presidente da companhia, o professor de educação física Carlos Lanz, a prioridade nunca foi produzir, e sim "criar pequenas unidades que possam empregar armamentos básicos: fuzis e lança-foguetes, ou em seu lugar explosivos de maior escala".

 

Uma unidade de milicianos foi montada dentro da empresa, comandada pelo chefe de RH. O número de empregados dobrou, enquanto a produção desabava. Na semana passada, das 684 células de produção de alumínio, 316 estavam paradas por falta de manutenção. "Estamos no meio de um processo, aprendendo como as coisas funcionam", explicou a VEJA Alcides Rivero, um dos coordenadores do Controle Obreiro, a organização de empregados.

 

O descaso com os direitos trabalhistas é um ponto em comum nas empresas socialistas. A falta de equipamento de segurança tornou-se crônica. Na PDVSA, a estatal petroleira, funcionários que deixam o turno precisam entregar as botas de borracha aos que entram. Os coletes salva-vidas dos que trabalham no mar estão em trapos. Muitas vezes, os próprios empregados compram capacetes e equipamentos de proteção. "Os equipamentos de segurança na estatal nunca foram bons. Agora, estão ainda piores", disse a VEJA José Bodas, dirigente sindical da PDVSA.

 

Os salários estão congelados, apesar de a inflação anual ultrapassar os 30%. Quem ousa reclamar ou promover greve é punido. Rubén González, sindicalista faz quinze anos na Ferrominera Orinoco, em Cidade Piar, está há um mês em prisão domiciliar. Chavista no passado, González organizou uma greve em agosto pedindo o pagamento retroativo de um aumento salarial.

 

Depois da paralisação, foi preso por seis dias sob acusação de incitar a delinquência. Solto, foi condenado à prisão domiciliar. "Meu crime foi defender os trabalhadores", disse González a VEJA. Aos 50 anos, ainda é membro do PSUV, o partido de Chávez. "Isso não é socialismo, porque não há igualdade. Nós, trabalhadores, somos discriminados", diz. Até o momento, o governo chavista já processou 64 dirigentes sindicais. Nas palavras do jornalista Damián Prat, que escreve no Correo del Caroní, Chávez entrará para a história por ter criado o "estatismo selvagem".

 

A devastação chavista é ainda mais virulenta no campo. As invasões de terra estão a cargo das Forças Armadas. Há sete meses, Orlando José Polanco teve sua fazenda de 2.200 hectares no município de Simón Planas tomada por 1.000 soldados. Logo depois chegaram quinze tratores para começar a arar a terra. Com o movimento das máquinas ao fundo, Hugo Chávez gravou no local o Alô Presidente, seu programa dominical na televisão. Uma semana depois, todos os tratores estavam quebrados. "Há muitas pedras no solo aqui. É impossível arar ou plantar feijão", diz Polanco. "Eles não sabem o que fazem." A casa do vigia, dentro da propriedade, transformou-se em um posto da polícia militar. A 10 metros de distância ainda se vê um ninho de metralhadoras, deixado pelo Exército.

 

Nem os pequenos proprietários estão a salvo. No mês passado, um helicóptero Superpuma da Aeronáutica, com capacidade para vinte pessoas, pousou na fazenda San José, de 71 hectares, em Barquisimeto, levando a bordo o presidente do Instituto Nacional de Terras e o ministro da Agricultura. Bandeiras foram hasteadas, houve discursos e, uma semana depois, chegaram 250 integrantes da milícia campesina. Eles vestem camisa vermelha, pintam o rosto com tinta de camuflagem e cantam hinos revolucionários.

 

"Aconteceu tanta coisa em apenas um mês que acho que não tenho mais medo de nada. Estou pronto para o pior", disse a VEJA Oscar Martinez, que plantava milho e criava gado para corte na San José. Martinez e outros agricultores lembram com saudade de quando a Venezuela exportava café, milho, arroz e laranja. Antes de Chávez, o país produzia 90% do açúcar e 76% da carne que consumia. Hoje, a produção doméstica só dá conta de 30% e 45%, respectivamente.

 

Os apagões quase diários e sem aviso prévio, que duram entre duas e cinco horas, são outro exemplo da ineficiência socialista. Apenas a cubanização explica como um país instalado sobre a quinta maior reserva de petróleo do planeta padece de escassez de eletricidade. A incapacidade administrativa do chavismo pode ser medida em números. Por falta de manutenção, só está em operação metade das vinte turbinas de Guri, a principal hidrelétrica do país.

 

A maior termelétrica, Planta Centro, opera com reles 6,5% da capacidade instalada. Na Electricidad de Caracas (EDC), a produção já é 5% menor que a de dois anos atrás, quando foi estatizada. A Edelca, estatal de geração de energia hidrelétrica, era considerada um exemplo de eficiência. No ano passado, pela primeira vez, não registrou lucro. Seus fornecedores não recebem há quatro meses. Nos últimos quatro anos, o número de funcionários subiu de 3.500 para 5.600.

 

A única consequência positiva da devastação do sistema produtivo é a queda da popularidade de Chávez. Com os alimentos escassos, salários congelados, falta de água e luz, os venezuelanos começaram a entender o significado real do que diz o presidente falastrão. Segundo as pesquisas, apenas 17% votariam por Chávez se as eleições fossem hoje. Há um mês, eram 31%. A desastrosa transição para o socialismo só não levou o país ao colapso total porque o presidente conta com o dinheiro da venda do petróleo. Estima-se que Chávez tenha gasto 900 bilhões de dólares em dez anos, metade dos quais proveniente da exportação petrolífera.

 

Em termos de desabastecimento, a vida no país assemelha-se bastante à de Cuba: há escassez de papel higiênico, sabonetes, farinha e leite. Nos supermercados estatais, a lista com os produtos disponíveis é fixada na porta a cada manhã. Quase todos os alimentos são importados. A diferença entre Venezuela e Cuba é que o primeiro país tem quase o triplo da população do segundo e guarda petróleo em seu subsolo. Com gente e dinheiro, a Venezuela é um mercado muito mais atraente para o Brasil que a ilha caribenha. Já Chávez é tão ruim para seu povo quanto os caquéticos irmãos Castro.

 

 


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