Ele enfrentou sozinho o MST. Um contra 500.

Ele enfrentou sozinho o MST. Um contra 500.

 

Leandro Mariani Mittmann

leandro@agranja.com

 

O promotor gaúcho Gilberto Thums, 54 anos, pai de duas filhas, de 29 e 10 anos, se autodefine como “filho de colono”, por ser originário do interior do município de Roca Sales, de 10 mil habitantes no Vale do Taquari, no Rio Grande do Sul. Há menos de dois anos começou um enfrentamento sem trégua com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Chegou a requerer a sua ilegalidade e investiu contra as chamadas escolas itinerantes, onde crianças filhas de acampados recebem, nos acampamentos, aulas cuja grade curricular passa ao largo daquela das demais escolas de ensino fundamental brasileiras. Foi uma luta inglória. Recebeu a oposição de muita gente, inclusive dentro do próprio Ministério Público, moções de repúdio, ameaças diversas até de fora do país, viu seus telefonemas sendo grampeados e sofreu até um atentado na rua. Pressionado pela família, abandonou temporariamente suas causas. Mas não suas convicções, como demonstra nesta entrevista reveladora.

 

 

A Granja - Por que o senhor abandonou essa sua verdadeira cruzada contra o MST?

 

Gilberto Thums - Na verdade foram várias razões que concorreram para que eu desistisse de ficar à frente deste embate que está ocorrendo no Ministério Público,(MP) com o MST.

Uma das questões é interna do próprio MP, não o do Rio Grande do Sul, mas o do país. Começou por um grupo de promotores ligados ao Conselho Nacional de Procuradores Gerais, que fez uma moção de repúdio à minha pessoa e ao MP do Rio Grande do Sul. Nessa moção consta que tudo o que os integrantes do MST fizerem em nome do movimento é legal. Quer dizer, no momento em que o MP, por meio de um órgão, vem dizer isso de público, já não há mais o que dizer. Mas a questão não parou aí. Eles (integrantes do MST) utilizaram todos os recursos para me minar como se diz em todos os níveis possíveis, usando as instituições e, inclusive, a rede mundial de computadores. Começou na Câmara dos Deputados. O deputado Pompeo de Mattos (PDT/RS) assinou uma nota condenando as atitudes do MP e dizendo que eu seria condenado em tribunais internacionais por estar criminalizando um movimento social como é o MST. Mas a questão foi além. Depois, a Comissão de Direitos Humanos do Senado me convocou para prestar um depoimento sobre a forma de agir do MP em relação ao movimento, dizendo que nós estávamos criando uma situação insustentável de violência jurídica contra um movimento que era legítimo. A grande mídia que conhece mais o movimento, na verdade, me apoiava. Mas (a causa) começou a enfraquecer muito dentro da própria instituição. Eu tive colegas que acharam estranho meu posicionamento, me chamando de ultradireita. Criou-se uma situação de bastante constrangimento. Depois, eu comecei a sentir também uma pressão maior em relação à minha vida pessoal.

Meu telefone começou a receber mensagens de conversas que tive a céu aberto, conversas de rua, que eles estavam gravando. Não sei como isso é feito. Parece-me que há uma tecnologia de laser a longa distancia. Fui fazer uma palestra na PUC (universidade) sobre movimentos sociais e, antes da palestra, conversei com os organizadores do evento. Antes de eu começar a palestra entro uma mensagem de voz no meu telefone, e era a conversa que eu tinha tido com o pessoal ali fora, questão de cinco minutos antes. Alguém gravou e mandou para o meu telefone. Tentei ver a origem do número, mas o sistema indicou que não tinha origem. Isso começou a me deixar um pouco assustado. Depois, ocorreu um episódio na rua, que foi visivelmente um atentado à minha pessoa. Mas eu não posso atribuir ao movimento. Pode ter sido um sujeito alucinado ou louco. Sei lá.

 

A Granja - Como foi este atentado?

Thums - Eu tinha uma rotina, um hábito. Todos os dias, por volta das 18h, 19h, eu ia correr no Parque Marinha do Brasil (em Porto Alegre). Ao atravessar a avenida Borges de Medeiros havia um carro parado a uns 20 metros de distância que arrancou em alta velocidade, “fritando” pneu, saindo fumaça. Eu tentei recuar e o carro veio para cima de mim, mesmo no recuo. Aí eu tentei correr para a frente, e ele mudou a trajetória, jogando o carro contra mim. Eu retomei de novo e aí consegui alcançar o meio-fio da calçada. E o carro foi embora. Na hora entrei em pânico porque era um doente, um louco, um alucinado. Depois que passou este susto, tanto que nem consegui ver a placa, comecei a raciocinar e ligar uma coisa à outra, e imaginei que fosse uma intimidação. Não para me matar, mas para me intimidar. Então, associando coisas daqui e dali... e começou a haver pressão da famí1ia, “por que você está lutando por uma causa que, em tudo que é lugar, você é recriminado, não tem um apoio institucional. Você está lutando por uma causa que não vai trazer nada de positivo para nós”. Aí, comecei a avaliar e cheguei à conclusão de que seria melhor eu me afastar.

 

A Granja - Quando você decidiu?

Thums - Foi naquela audiência pública na Assembléia Legislativa, uma cena armada pelo MST. Era uma audiência pública, um lugar apertado e encheram com centenas de crianças que ficaram em cima com o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) na mão. As crianças faziam piadinhas, e uma professora que ficava na minha frente me olhava e me chamava de nazista o tempo todo. E aquilo começou a me incomodar. Comecei a olhar uma janela, se tinha uma, para eu pular dali, porque a cena era de hostilidade. Havia uns dez deputados do PT com discurso feroz. Técnicos do MEC (Ministério da Educação e Cultura), de Brasília, que vieram pra dizer que as escolas itinerantes são escolas legais, e que a atitude do MP é insana, completamente equivocada, etc. Então, foram 500 contra um. Eu nunca me senti tão acuado. Eu comecei a refletir naqueles momentos finais:

“Mas quem sabe eu não estou radicalizando demais e isso não vai levar a bom termo em situação nenhuma?”. Então, achei prudente... “quer saber de uma coisa? Vou abdicar dessa função e deixar que outros, menos os do MP, continuem”. Até o pessoal da própria (Vara) Infância e Juventude, para flexibilizar um pouco este Termo de Ajuste e Conduta (TAC) que foi feito com o Estado e se tentar chegar a bom termo, conforme cada situação. Achei que esta era a melhor saída. Eu saí porque tomei uma posição bastante radical.

Até cheguei a declarar que eu fiquei meio xiita, mas xiita no sentido do radicalismo, porque eu investiguei muito a questão do MST há mais de ano. Temos 50 mil páginas de material coletado de informações. E formei uma convicção, que não posso mais mudar. Então, não adianta o que vão me dizer, porque não me convencem mais. Como a minha visão ficou muito radicalizada, achei que para o próprio MP seria bom que eu me afastasse, porque poderia flexibilizar as negociações. Na verdade, não é um abandono. Seria uma forma para se chegar a um melhor entendimento sobre o assunto.

 

A Granja - Por que o senhor investiu contra as escolas itinerantes do MST?

Thums - Porque eles exercem um poder de alienação mental sobre as crianças. Uma criança de dez anos de idade sabe o hino do MST, sabe dizer palavras de ordem, conhece técnicas de enfrentamento de polícia. Eu fico com medo, sinceramente. Para ela só falta uma arma para se tornar como aqueles guerrilheiros que vemos em países que estão em crise democrática. Estas escolas sofrem um controle muito forte ideologicamente por parte do movimento. Se esta escola é pública, tem que dar um ensino fundamental obrigatório pela Constituição. O Estado tem que estar presente na escola. Se não com um professor do Estado (caso não tenha esse profissional, e o professor é do movimento), mas se o mesmo homologa a freqüência do aluno e expede o certificado de conclusão do curso, então o Estado tem que ter o controle de dias letivos freqüentados. E se cumpriram o currículo mínimo, para ver se fizeram o que a Lei de Diretrizes e Bases determina em relação ao ensino fundamental.

O que acontece hoje? O Estado está 100% ausente das escolas dos acampamentos. Virou uma escolinha particular dentro de uma ilha controlada exclusivamente pelo movimento. E como o poder público vai referendar que está tudo legal o que está acontecendo? A reação deles (integrantes do MST) está ligada à perda do controle sobre a ideologia das crianças. Por quê? Se uma criança tiver acesso ao chamado ensino universal ela pode sair do acampamento, amanhã procurar um emprego numa empresa, participar de um concurso público, montar um negócio. E ela vai sair desta lama do acampamento.

Mas o que faz a escola itinerante? Ela condena o aluno a manter o modelo dos pais. Ou seja, ficar acampada a vida inteira. Isso é uma coisa diabólica. Viola direitos fundamentais das crianças. A posição do MP é de que as escolas itinerantes do modelo, como estão hoje, violam direitos fundamentais. Mas para o MST nós estamos violando os direitos das crianças de terem educação e jogando elas na vala sem direito a ensino, etc.

Os alunos das escolas itinerantes têm direito a freqüentar escolas públicas como todo mundo tem direito. Eu pergunto: se os acampamentos não são mais itinerantes, não se movem mais ... em Nova Santa Rita, ao lado da BR 386, há um acampamento que está há mais de dez anos ali ... aí eu pergunto: por que a escola seria "itinerante" se o acampamento é fixo? Por que esses alunos não podem entrar na rede pública? A 300 metros do acampamento há moradias de pessoas pobres, e estas crianças precisam ir à escola pública a pé. Agora, os filhos dos assentados têm o privilégio de, dentro do acampamento, ter uma escolinha deles, segundo o que os pais ou os líderes querem. Isso é uma discriminação inaceitável. Um privilégio incabível, até porque fortalece a continuidade do movimento com essa visão alienante que eles têm.

 

A Granja - Mas alguém no MP vai levar à frente suas causas? O senhor chegou a pedir a dissolução do MST. Alguém vai levar isso adiante?

Thums - Não. Aí é que está. Desde 2007 - e continuo entendendo isso -, eu, como pessoa, sou pela extinção do movimento. Aliás, pela declaração de sua ilegalidade. Não é nem pela extinção, pois este movimento não pode ser extinto. Mas eu comungo da opinião de que o MST é uma organização paramilitar proibida pela Constituição Federal, intolerável num Estado Democrático de Direito. O objetivo seria declarar o movimento ilegal e proibir os órgãos públicos de negociarem e destinarem qualquer recurso a este movimento. Esta era a minha proposta. E eu continuo sustentando ela como viável. Mas o Conselho Superior do MP não referendou isso. Até por pressão de todas as instituições públicas, pois seria uma medida suicida. A instituição não apoiou. Acho até que, honestamente falando, é uma visão extremamente radical. Mas eu a defendo. E vou até a morte defendendo. Se eu tivesse este poder, realmente entraria com uma ação para tornar ilegal o movimento. Mas não posso fazê-lo. O MP não referendou este posicionamento e sim a designação de promotores para que efetivassem medidas para conter a violência no campo. Tivemos oito ações ajuizadas que foram exitosas, que até pacificaram, no Rio Grande do Sul, essa onda de violência que estava ocorrendo.

 

A Granja - Que ações?

Thums - Começamos na comarca de Carazinho/RS, que envolvia a Fazenda Coqueiros (em Coqueiros do Sul/RS), onde havia dois acampamentos e cujo espaço físico foi arrendado por um ‘laranja’ para servir de base para molestar o proprietário, até que ele entregasse as terras. O proprietário resistiu durante dois ou três anos. Ele registrou 168 ocorrências policiais por destruição, incêndio, vandalismo, enfim, tudo. E se ele quisesse entrar com uma ação contra a União para ressarcir os danos, acho que iria ficar rico, porque os danos sofridos foram incalculáveis.

Lá o MP promoveu esta ação, o juiz deu a liminar e o Tribunal confirmou. E as outras ações foram ajuizadas para inibir a questão das marchas, porque o movimento tinha escolhido umas sete ou oito fazendas, que são empresas rurais de produtividade elevada, cujo objetivo era tomar estas fazendas na marra. Isso é uma coisa que a instituição proíbe, e os juízes de todas as comarcas onde as ações foram distribuídas acolheram esta medida, acharam-na correta, coerente, e então foram proibidas as marchas.

 

A Granja - Quais foram os resultados práticos destas ações?

Thums - Estas medidas momentaneamente produziram um resultado significativo, mas isso não paralisou o movimento. Eles estão até respeitando estas decisões, mas estão canalizando o movimento para outros locais. Mas estão continuando. Estão calmos porque o Governo Federal está drenando muitos recursos para o movimento. Porque o Presidente Lula tem uma consideração especial por eles. Em São Gabriel/RS está ocorrendo um assentamento numa área em que foi comprada parte da Fazenda Southall, e ali vão ser assentadas 660 famílias. Bem, isso é uma parte. São 2.200 famílias mais ou menos acampadas no Rio Grande do Sul. Se assentar umas 660, vai faltar cerca de 1.600 para assentar. Mas a questão curiosa merecedora de destaque é que se conseguíssemos 52 mil hectares de terra assentaríamos todas as famí1ias. E existe uma área de 52 mil hectares em Rosário do Sul/RS pertencente ao Exército. Essa área é uma fazenda imensa. E a pergunta é: o movimento quer esta fazenda? Não. Por quê? Porque acaba o movimento. Vão acabar os acampamentos e só teremos assentamentos. Isto não pode ocorrer.

O MST é um movimento que jamais vai acabar. Jamais. O que acontece hoje? Nos pequenos assentamentos feitos, os assentados ocupam, deixam um familiar, um conhecido, e eles continuam nos acampamentos. É um círculo vicioso que não tem fim. Virou uma indústria. O MST está recrutando pessoas na área urbana. Eles vão nas favelas, como aqui em Porto Alegre, na Vila Cruzeiro, recrutar pessoas para irem para os acampamentos. Dentro dos acampamentos existem pessoas de todos os gêneros: criminosos, foragidos, desempregados urbanos, pessoas que não têm terra mesmo, que, talvez, seja uma minoria. E exploradores, interesseiros ...

 

A Granja - Mas quais são os objetivos do MST?

Thums - Hoje é difícil dizer o que eles querem. Na verdade, eles têm outro objetivo. A luta não é mais pelo acesso à terra. O MST se tornou um movimento político em busca do poder. Só que a forma escolhida é pela violência, embora não tenham arma de fogo. Mas têm outro tipo de arma.

 

A Granja - Que armas?

Thums - Os instrumentos ... facão, foice ... “Ah, é instrumento de trabalho ...” Não é! Estas foices que usam é para derrubar mato. E as fazendas que eles querem não têm mato. Então, não é um instrumento de trabalho. Instrumento de trabalho é uma enxada. Eu enxergo colono com enxada. Agora, se o cara vem com facão e foice, é alguém que está desbravando mato. E não temos mato para desbravar. O que eles querem? Querem ocupar. O MST escolhe fazendas produtivas. Querem pegar o negócio pronto. A mamata, como se diz. Aí é fácil. A pergunta é: por que eles não querem ocupar um lugar onde terão que tomar a iniciativa de começar, tornar a terra produtiva?

 

A Granja - O que o senhor pensa da reforma agrária no Brasil?

Thums - Não existe no Brasil um plano para a reforma agrária. O que acontece hoje? O INCRA compra pequenas áreas, faz um assentamentozinho, as pessoas ficam ali, não produzem ... o MST não torna a terra produtiva. Isso é uma das coisas que têm de ficar claras. Quem produz são os agricultores, que conhecemos quem são, são as pessoas “de braço” que lutam para sustentar a família e para criar desenvolvimento no país. Eu observo hoje a riqueza rural, que vem de quem? Vem da chamada empresa agrícola. E não de pequenos agricultores assentados. Aliás, pequenos agricultores que são uma tradição no Rio Grande do Sul. Temos muitos pequenos agricultores, e vejo o sofrimento deles com a seca, com as intempéries, enfim. A imprensa mostra pequenos proprietários rurais num sofrimento terrível, às vezes passando fome. Se eles tivessem um pouquinho de luzes, iriam acampar, porque o acampado tem cachaça, erva-mate, comida e vadiagem. Não tem nada melhor. A única coisa ruim é ficar embaixo de uma lona preta. Mas a isso a gente se acostuma, porque não fazer nada e viver do ócio é a melhor coisa que pode existir. Agora, encarar uma terra onde o sujeito trabalha 15 horas por dia e no final do mês ele mal consegue sustentar a família, e às vezes os filhos passam fome, isso é aberrante. É um choque de situações intoleráveis. A situação do MST como está é insustentável.

 

A Granja - E o que fazem os governos?

Thums - Nenhum governante tem um plano para resolver o problema fundiário no país. Nenhum. Esta questão é uma bola de neve que vai se arrastando ao longo de governos e governos e não se resolve nada. Houve uma CPI da Terra, em 2005, e quem leu as conclusões constatou claramente: o Brasil não é um país onde se pode fazer reforma agrária como antigamente se apregoava. Só tem três países com reforma agrária em curso e ficam na África. O Brasil não é um país hoje onde tu podes fazer um projeto de reforma agrária nos moldes como apregoam alguns pensadores em gabinetes e que nunca viram terra. A reforma agrária no Brasil tem que ser feita de outra forma. Temos terras produtivas, latifúndios, o INCRA tem parâmetros de produtividade que talvez poderiam ser alterados, obrigar que alguns latifúndios mudassem a forma como a terra é explorada. Com isso eu concordo. O Brasil poderia produzir muito mais.

Mas uma coisa é certa: da forma como está sendo projetada a reforma agrária, com invasão de terras produtivas, indenizar e colocar ali colonos que nunca tiveram terra para cultivar, isso é um dos maiores erros que um país pode cometer. Não é reforma agrária. É lambança com dinheiro público a situação em que assentados recebem lotes e depois vão vendê-los. E eu questiono o seguinte: na cartilha do MST está dito que a terra é um bem de todos; ninguém pode ser proprietário de terras. Isso está na cartilha e foi dito pelo Stedile (João Pedro, líder do MST) que são 26 mil proprietários rurais ricos e 26 milhões de sem-terra e que são 1.000 contra 1. Enquanto houver um proprietário, a luta não vai parar. Isso é uma apologia à violência no campo. É a bandeira deles. É como foi na China. A reforma agrária na China foi matar os proprietários.

Este é o lema do MST. É o discurso da violência. O discurso do MST é de que a terra é um bem de todos, e isso é coisa do Karl Marx: os bens de produção têm que estar nas mãos do Estado, não se admite propriedade privada. Isto é inconciliável. A proposta de reforma agrária que o INCRA está desenvolvendo e que é a bandeira do MST é uma questão suicida no sentido de aumentar a produtividade no país. O país não vai progredir com este modelo de reforma agrária proposto. Não é reforma agrária; é acomodar alguns interesses e manter o movimento sempre em ascensão, como é o caso do MST. Porque ali políticos se elegem, dinheiro público é drenado para esses fins sem controle nenhum. E as coisas vão se arrastando, entra governo e sai governo e o problema continua.

 

A Granja - O que se poderia fazer com relação a tudo isso?

Thums - Não sei o que a sociedade brasileira vai fazer. Sei que o Conselho Nacional de Justiça pela primeira vez vai instalar um fórum permanente sobre os conflitos agrários. Acho interessantíssimo. É uma iniciativa do ministro Gilmar Mendes (presidente do Supremo Tribunal Federal) no sentido do Poder Judiciário fazer um controle sobre as ações judiciais no país no que envolve terras. Além disso, para haver controle sobre compra e venda de terras, para fazer um mapeamento no país. Não temos na verdade um controle. o Pará, que é o estado mais conflagrado em matéria de conflitos agrários, existem 106 mandados de reintegração de posse de fazendas invadidas que a governadora (Ana Júlia Carepa, do PT) não cumpre. E diz que não vai cumprir. O argumento é que muitas fazendas são objetos de grilagem, que foram tomadas à força e então também podem perder à força. O Pará é o maior foco de conflitos e de maior violência que o MST vai enfrentar nos próximos anos. Já houve o episódio de Eldorado dos Carajás (conflito em 1996 em que 19 sem-terra foram mortos pela polícia), que sensibilizou a opinião pública para a questão dos sem-terra.

Mas hoje a opinião pública está contra os sem-terra porque com o passar dos anos foi mostrado que o movimento recrudesceu e usa técnicas condenáveis para reivindicar. Se eles são de um movimento social e têm um instrumento de pressão que são passeatas, onde estas deveriam ser feitas? Em Brasília. Acampar na frente do Palácio do Planalto, cercar o Congresso Nacional e exercer a pressão sobre o poder central do país. O que é injusto e intolerável é que invadam uma fazenda que é uma empresa rural para forçar o proprietário a vender a terra ao INCRA. Isso é aberrante, viola a Constituição de uma maneira frontal e inaceitável, porque a Constituição Federal garante a propriedade privada.

Quando eu digo isso, todo o mundo me chama de nazista.. de direitista. Se isso é ser de extrema direita, então pode me rotular desta forma. Porque a Constituição, assim como garante os direitos sociais, também garante o direito de propriedade. Quem tem que resolver os problemas agrários é o poder central. Não posso obrigar um proprietário rural a entregar as terras para o INCRA e dizer “olha, façam a reforma agrária aqui nas minhas terras”. A Constituição garante a ele o direito de propriedade se a terra dele produz, está nos índices de produtividade estabelecidos pelo INCRA e ele tem empregados rurais. A terra cumpre uma função social, e pela Constituição a terra que cumpre função social não pode ser objeto de desapropriação. Então, o que o MST faz: invade terra produtiva, que não pode ser objeto de desapropriação. Mas qual é a técnica? Violentar o proprietário sem fim. Ele não pode mais plantar, eles matam o gado, sabotam, fazem tudo o que é sacanagem com o proprietário até que ele não agüente mais. E aí ele oferece a terra para o INCRA.

 

A Granja - O senhor tem exemplos destas ações?

Thums - Foi como aconteceu aqui com a Cristina da Granja Nenê (Maria Cristina Coutinho, em Nova Santa Rita, Região Metropolitana de Porto Alegre). Ela só não vendeu as terras para o INCRA porque alguém chegou para ela na hora H, quando ela ia vender, e disse “não faça isso! É isso o que eles querem”. Ela tinha 750 cabeças de gado de alta linhagem e não tem mais nenhuma; ela plantava não sei quantos mil hectares de arroz, mas depois só podia plantar uma pequena área, que o MST autorizava. Então, ela acabou se tornando inviável como empresa rural. Era isso que o MST queria: tomar a terra dela. E era um ponto estratégico.

 

A Granja - Por que “ponto estratégico”?

Thums - O MST, nos últimos tempos, tem um projeto de ocupação territorial estratégica. Em vários pontos do estado (Rio Grande do Sul) e do país existem espaços escolhidos. O da Granja Nenê é um objetivo do qual jamais o MST vai desistir. Porque é o ponto mais nevrálgico do Rio Grande do Sul. Ali passa o duto da nafta da Refinaria Alberto Pasqualini (Canoas/ RS) que abastece o Polo Petroquímico (Triunfo/RS); ali passam duas rodovias (BR 116 e BR 386) e três redes de alta tensão que abastecem toda a Região Metropolitana e a Capital Porto Alegre. E fica encostado nos rios Caí e Guaíba. Ou seja, em 20 minutos eles conseguem parar o estado. Se colocar uma dúzia de pneus embaixo de uma torre de alta tensão, acabou. Ela cai em menos de meia hora. E eles podem provocar um incêndio de proporções gigantescas num duto de óleo que passa ali. A pergunta é: por que eles querem esta granja? Porque fica numa posição estratégica. Hoje tenho que tirar o chapéu para o movimento pela inteligência com que estão conduzindo o alcance de seus objetivos.

Recentemente, o Stedile fez uma declaração no congresso dos 25 anos do MST de que agora os alvos do MST não são mais as terras: estão mirando nas estatais e nas empresas de energia. A Petrobras é um grande alvo do MST. As estatais que foram privatizadas, como a Vale do Rio Doce, também continuam sendo um dos grandes objetivos do MST. Se formos olhar por este lado, está nítido que o movimento deixou de ser uma simples questão agrária e se tornou algo muito maior. Os cegos não querem ver. Ou não podem ver.

A conclusão a que chegamos nesta investigação é de que o movimento chegou a uma situação de extremo perigo para a democracia. Esta é a minha visão. O MST é uma ameaça à democracia. Só que para dizer isso, estou comprando uma briga violenta com toda a esquerda do país. Por quê? Porque isso é um movimento que vem depois da Constituição (até um pouquinho antes) nas universidades. Hoje, todo discurso de universidade brasileira é um discurso de esquerda.

 

A Granja - E a questão dos recursos volumosos que os governos repassam ao MST, sobretudo o Governo Federal?

Thums - Para mim esta é a questão mais tormentosa. Como são verbas federais, não cabe ao Ministério Público Estadual tomar providências sobre isso. Mas mesmo assim investigamos e chegamos muito perto do problema central do movimento, que é o gerenciamento do dinheiro deles. Como exemplo, veja a secretaria do MST, que fica na (travessa) Leonardo Truda, número 98, no quarto andar (Centro de Porto Alegre): no mesmo espaço físico há cinco ou seis ONGs que são do MST. Quando há uma licitação pública para capacitação de assentados, estas OGNs são as que ganham a licitação. É muito fácil. O MST foi a coisa mais genial que alguém já pôde criar. É um monstro que tem uma cabeça, mas você não pode enxergar a face, cheio de tentáculos e que alcança todos os lados que você puder imaginar. Ele é sustentado por estas ONGs que drenam dinheiro público.

Houve uma época em que vinha muito dinheiro estrangeiro para cá, porque o MST é um movimento mundial. Em Nova Iorque há uma ONG, a Friends of the MST. Em vários estados americanos há ONGs do MST. E tem na Suíça, na Bélgica, na Espanha, na França ... em todo o mundo. Tanto é que recebi e-mail desse pessoal estrangeiro, colocando em sites a minha foto ao lado do Hitler... Hoje as verbas estrangeiras escassearam bastante, mas não são mais necessárias, pois o MST é regado a dinheiro público. O “Abril Vermelho” só é possível com verba pública. Como deslocar milhares de pessoas em ônibus? Quem paga? Quem paga é a cooperativa tal... mas esta cooperativa recebe dinheiro de quem? Ah, recebeu uma verba federal, mas não é para transportar pessoa, mas para outra finalidade. A grande idéia foi criar estas cooperativas cuja função é a defesa de direito sociais. Ao olharmos o registro delas na Receita Federal o objeto da cooperativa é “defesa de direitos sociais”. Mas isso é ambíguo. É tudo. Eles recebem dinheiro para cumprir esta finalidade. Num levantamento preliminar e superficial, de 2004 até 2008 foram destinados mais de R$ 50 milhões do Governo Federal para as cooperativas. Não posso afirmar que todas as cooperativas deram dinheiro para o MST. O que tem que ser dito é que o MST é nutrido por ONGs que recebem verba federal. Senão eles não poderiam se sustentar. É preciso muito dinheiro para sustentar uma estrutura como essa. “Abril Vermelho”, depredações de multinacionais, “papeleiras” (mulheres que protestam contra empresas de celulose), isso tudo é feito com verba federal. Mas a questão do que sustenta o movimento é do Ministério Público Federal. Minha decepção é que os assentamentos não geram riqueza. E nem a autossustentabilidade. O Poder Público continua a sustentar as pessoas que estão em assentamentos. Claro que existe um ou outro assentamento que deu certo, na forma de cooperativa. Assentamentos mais antigos prosperaram.

 

ELE OUSOU ENFRENTAR O MST. MAS FOI OBRIGADO A RECUAR

 

A edição que está em suas mãos tem uma diferença relevante em relação às demais. Você pode observar que a capa não é ocupada pela tradicional Reportagem de Capa, mas é estampada por alguém que ousou enfrentar o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), suas ações e suas ideologias. E que teve que recuar após uma enxurrada de ameaças, inclusive de fora do Brasil, de gravações telefônicas grampeadas e até de um atentado na rua. Além de surpreendentes pressões internas de seus próprios pares. Não, a capa não é de um produtor rural ou um líder classista dos agricultores, já calejados das fúrias do MST, mas sim um independente promotor de Justiça, o gaúcho Gilberto Thums. São seis páginas de revelações bombásticas.

 

Revista A Granja, junho/2009 – Nº 726 – Ano 65 – Porto Alegre, RS.

 


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