Enganam-se os que crêem que o movimento dos sem terra é um movimento de pobres para ajudar os pobres

Como foi possível que o Movimento Sem Terra tenha adquirido uma tal notoriedade no Brasil, de modo a transformar-se num pesadelo não só para os proprietários rurais, mas para todos os brasileiros desejosos de ordem e legalidade?

Essa é uma pergunta que preocupa hoje milhões de brasileiros, que vêem nas agitações rurais um primeiro passo no plano das esquerdas para convulsionar o País.

A propaganda que a mídia faz do MST não explica inteiramente a notoriedade do movimento

Alguém dirá que tal notoriedade se deve fundamentalmente à imprensa, a qual tem dado um destaque fora do comum a tudo quanto diz respeito ao MST, causando assim a impressão de que ele é muito maior e mais influente do que na verdade é.

Tal observação tem muito de verdadeira. Mas ela não esgota a realidade. Pois é inegável que muito da notoriedade do MST lhe vem de uma organização impressionante, como se vê por exemplo nas constantes invasões realizadas pelo movimento.

Dignas de nota foram também as manifestações do chamado "Grito da Terra", durante as quais ocuparam edifícios públicos em vários capitais do País, ridicularizaram a presença do Exército em Brasília, ostentaram bandeiras do Partido Comunista no Rio, produziram dezenas de feridos em Porto Alegre ao tentar invadir pela força o prédio do Ministério da Fazenda e assim por diante.

Quem ostenta uma organização desse porte, e ousa com tanta arrogância, é porque tem muito dinheiro à disposição. E tem capacidade também de mobilizar, ao menos temporariamente, uma massa de manobra considerável.

De modo que só a propaganda da imprensa não explica tudo.

As altas proteções de que goza o MST lhe são necessárias, mas por si só também não explicam sua notoriedade

Outra observação, também verdadeira mas insuficiente, é que o MST é favorecido por altas proteções. Basta dizer que, apesar de se entregar a ilegalidades flagrantes, como é o caso das invasões de terras, não se tomam contra ele as medidas legais cabíveis. O esbulho possessório, habitualmente praticado pelo MST, é crime previsto no art. 161, II do Código Penal.

É claro que sem tais proteções o MST não teria condições de prosperar. Só elas, porém, não explicam tudo. Se o desagrado da opinião pública em relação às invasões se transformasse em clamor, tais proteções se tornariam menos numerosas e mais discretas.

Por que então esse desagrado não se transforma em clamor? Aqui vamos tocando o cerne do problema.

Embora a opinião pública esteja desagradada com as invasões de terras, a desinformação impede-a de levantar-se num protesto uníssono

O que impede a opinião pública desagradada de levantar-se, ao menos por enquanto, num protesto uníssono contra tais invasões, que vão arrastando o campo brasileiro para o caos?

Fundamentalmente é a desinformação. Desinformação que não significa necessariamente pouca informação, mas sim informação que não apresenta os problemas sob sua verdadeira luz. A desinformação atua sobre as mentes como uma praga que as desviruta e impede de ver a realidade.

De fato, no caso do MST, a falta de uma visão clara a respeito dele criou uma idéia falseada, meio romântica, de seus objetivos e de sua atuação.

Qual é essa visão romântica, que tem paralisado tantas reações sadias contra o MST? Procuraremos em seguida descrevê-la, ainda que sumariamente. É conhecendo-a, que se torna possível vacinar-se contra ela.

O principal fator de notoriedade do MST é a visão romântica, segundo a qual o movimento teria surgido de uma união espontânea de trabalhadores sem terra nem recursos

Segundo a lenda - e é bem de uma lenda que se trata, embora ela esteja viva no subconsciente de muitas pessoas - o MST seria um movimento representativo dos trabalhadores rurais pobres, muitas vezes escorraçados do trabalho por latifundiários egoístas e gananciosos.

Sempre segundo essa falsa concepção, o que resolveria de vez a situação dos camponeses famintos seria a Reforma Agrária. Ela expropriaria esses latifundiários desalmados, a terra seria distribuída entre os pobres, e todos teriam igualmente recursos para uma vida digna.

Mas, como o Governo estaria mancomunado com os capitalistas da terra, a Reforma Agrária não se faz para valer, e assim, segundo dizia o velho Arcebispo Vermelho, D. Helder Câmara, os pobres estão cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos.

Esses pobres trabalhadores, à míngua de recursos e para não morrer de fome, resolveram unir-se para invadir terras onde pudessem ao menos plantar para si e para seus filhos. Como o mesmo fato se repetia por toda parte, nas vastidões de nosso Brasil, tais trabalhadores acabaram por unir-se espontâneamente num movimento de caráter nacional, a fim de defender seus próprios direitos à vida e à alimentação.

Tal é a lenda, segundo a qual o MST teria surgido das águas da dor e do abandono em que se afogavam os pobres trabalhadores rurais.

Os números da "fome" no Brasil são inflacionados - Todo o exagero é insignificante

Não há o que nã esteja falseado nesse quadro.

Primeiramente, há mesmo tanta gente morrendo de fome no Brasil? Segundo a chamada "campanha contra a fome" realizada por Herbert de Souza, alcunhado de "Betinho", seriam 32 milhões os miseráveis no Brasil. Cifra endossada pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), que falava em "32 milhões de famintos" ("Conflitos no Campo - Brasil 93).

A CPT, nesse mesmo opúsculo, chegava a chamar o campo brasileiro, em 1993, de "país da fome".

É claro que todo brasileiro de bom coração se condói com o fato de haver patrícios seus passando necessidades. E deve procurar ajudá-los. Mas isso não pode ser feito com base em exageros evidentes e para finalidades pouco claras.

Ora, dois especialistas fizeram um estudo na mesma época desmitificando os tais 32 milhões. Tratava-se do técnico de planejamento da diretoria de pesquisas do IPEA, Francisco Eduardo B. de Oliveira, e do professor da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE, Kaizô I. Beltrão. Mostravam eles em artigo conjunto:

"O Programa da Fome é um dos maiores equívocos de que se tem notícia neste País. Logo de início o programa peca pela incorreção, por basear-se na existência de 32 milhões de famélicos.Trata-se de uma superestimativa grosseira. Bastaria olhar um pouco para a realidade para se constatar que não é crível que um a cada cinco brasileiros padeça deste terrível mal, mesmo considerando os mais depauperados rincões do Nordeste. Estas campanhas encerram um grande perigo.

"... O fato de que, dos 32 milhões de indigentes, 16 milhões estariam na área rural, é particularmente preocupante quanto à confiabilidade da estatística. É justamente na área rural que a existência de renda não monetária é mais frequente - auto-consumo, escambo etc. São a norma e não a exceção no campo.

"Note-se que, na última pesquisa com dados disponíveis desta natureza, nas famílias rurais mais pobres (até dois salários mínimos), a parcela não monetária representava em torno de 50% do total da despesa" ("Jornal do Brasil", 29-12-93).

Por sua vez, o professor de engenharia de alimentos na Universidade Federal do Rio, Luis Eduardo Carvalho, afirma:

"Definitivamente não temos 32 milhões de pessoas com fome no Brasil" ("Veja", 29-12-93).

E o sociólogo Sérgio Abranches, perguntado pela revista Veja - "onde ficam os 32 milhões de famintos de Betinho ou os 60 milhões de miseráveis de Lula?" - respondeu:

"Francamente, não sei. Não consigo encontrá-los. A meu ver, substima-se muito a renda do brasileiro. Usamos referências complicadas, estatísticas ruins". E sobre o relatório da ONU, referente à pobreza no Brasil, acrescentou: "O relatório da ONU tem graves falhas. A tabela que compara a qualidade de vida no Brasil e nas ilhas Fiji me parece uma impossibilidade metodológica. Como misturar o Brasil com Botsuana, que é quase tribal, com uma organização complexa como a nossa?... Nos acampamentos dos sem terra tem Fusca, por exemplo" (Veja, 15-06-94).

De modo que o problema da fome é frequentemente inflacionado por certa esquerda para atingir seus objetivos de revolução social.

Ademais, a fome não produz revolução

Entretanto, admitamos só para argumentar que de fato no Brasil o número de famintos fosse colossal, especialmente no campo. Seriam esses famintos que fundaram o MST?

Não parece. Quem tem fome quer comer e não invadir propriedades. Quem o diz não somos só nós. Temos um testemunho bastantnte insuspeito nesse sentido: Lula:

"Quem briga é quem come, quem briga é quem tem sindicato organizado, quem briga é porque já tem um nível de cultura razoável. Um cara que está com fome não faz a revolução, ele fica submisso. A FOME NÃO LEVA NINGUÉM À REVOLUÇÃO, LEVA À SUBMISSÃO. O cidadão vira pedinte, vira mendigo".
(Entrevista de Luis Inácio Lula da Silva a Álvaro Comin e Carlos Alberto Marques Novaes; in "Novos Estudos CEBRAP", publicação quadrimestral do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento; julho de 1993; p. 72; destaque nosso).

Outro dado falseado no quadro: a Reforma Agrária resolveria o problema da pobreza, e assim acabaria com as invasões

Outro dado completamente falseado nesse quadro é o de que a Reforma Agrária resolveria o problema dos pobres no Brasil.

De fato, o que tem acontecido é que por toda parte ela tem aumentado e disseminado a mais negra miséria.

A ex-URSS ainda hoje se debate com a herança trágica da Reforma Agrária que lá foi imposta por Lenine e continuada por Stalin e seus sucessores.

Cuba não sabe para onde se virar para conseguir manter a população da outrora próspera Pérola das Antilhas. A Reforma Agrária cubana arrasou até com a tradicional produção de cana da ilha.

O México, onde se fez a mais antiga Reforma Agrária do mundo, antes mesmo da soviética, acabou por fugir espavorido dela, devido à miséira em que caiu a população. Foram restabelecidas a propriedade e a iniciativa privadas.

E assim por diante.

A Reforma Agrária não é um meio de dar condições de vida razoáveis à população pobre, pelo contrário, ela dissemina e aumenta a miséria. Ela é, isto sim, um fator necessário para os que querem a destruição das classes sociais e a implantação de um regime socialo-comunista, anti-cristão. E é por isso, e não por amor aos pobres, que os Partidos Comunistas sempre moveram céus e terra para fazer Reforma Agrária.

É profundamente lamentável verificar que, muitas vezes, pessoas até bem intencionadas, sejam elas da esfera governamental ou privada, se deixem levar pela jogada da propaganda agro-reformista. E cheguem a declarar que o modo de pôr fim às invasões de terras é fazer Reforma Agrária.

Nada mais falso do que essa afirmação. Nada faz mais o jogo do esquerdismo revolucionário do que pensar dessa maneira.

O fracasso dos assentamentos de Reforma Agrária por todo o Brasil é um fato notório. Onde se instalam, eles vão transformando o interior numa verdadeira "favela rural".