Na arapuca das esquerdas, líderes rurais

Não podendo sustentar a polêmica em seus termos mais profundos – ideológico-religiosos – a esquerda agro-igualitária forçou a transferência do debate para outro campo. A Reforma Agrária nada teria de ideológico e muito menos carrearia consigo conotações religiosas. Era simplesmente um assunto sócio-econômico, que visava melhorar a produção agrícola nacional e ajudar as classes menos favorecidas dos agricultores.

Essa tomada de posição da esquerda não era propriamente nova. Ela já estava presente na fase anterior da polêmica. Nova, sim, era a estratégia de dar realce exclusivo aos aspectos sócio-econômicos, pondo na sombra e até negando o caráter também ideológico e religioso do tema em debate.

A nova estratégia teve um importante efeito imediato favorável à esquerda. Esse efeito foi sentido sobretudo na atitude de numerosas cúpulas de fazendeiros, que não só aceitaram renunciar à proteção que lhes vinha da fortaleza inexpugnável dos princípios católicos que defendem a propriedade privada, como começaram até a fazer concessões inadmissíveis aos agro-reformistas. Deixaram-se iludir - não falamos aqui dos que tenham participado conscientemente desse jogo - optando por uma Reforma Agrária aparentemente moderada, mas que continha em si os mesmos germes igualitários.

Eles que eram, ao mesmo tempo, uma força poderosa no panorama nacional e os mais interessados em preservar suas propriedades agrícolas do tufão agro-reformista, adotaram a filosofia suicida do “ceder para não perder”. E de cessão em cessão, chegaram aos dias de hoje, em que a outrora poderosa classe dos fazendeiros, a tantos títulos benemérita pelo muito que fez em favor do desbravamento e crescimento da Nação, tornou-se uma classe humilhada e deprimida.

É verdade que os proprietários rurais ainda têm grandes possibilidades de ação, caso saibam enfrentar a cruel guerra psicológica que lhes move certa mídia e muitos clérigos. Quererão eles, hoje, lançar-se a uma ação legal de resistência e protesto que, sem ser cruenta como a que se trava atualmente no infeliz Zimbabue, entretanto é vital para sua sobrevivência como classe e para o bem do Brasil? O futuro o dirá.

Nos anos de 1987/88, quando se debatia em Brasília a nova Constituição brasileira, toda a Nação presenciou o fato insólito de que a poderosa Bancada Ruralista, influenciada por líderes rurais então muito considerados, aprovou os dispositivos que permitiam ao Governo fazer essa Reforma Agrária socialista e confiscatória que aí está e que significou a derrocada da classe dos proprietários rurais. E isto apesar de que os constituintes foram alertados a tempo para a gravidade das conseqüências que decorreriam dos dispositivos então em debate. O livro do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, Projeto de Constituição Angustia o País, enviado a todos os constituintes e divulgado em campanha nas ruas, chegou a ter a impressionante saída de mais de mil exemplares diários, o que equivalia a um verdadeiro plebiscito. Não foi suficiente para mover os legisladores de então ao bom senso, nem mesmo - o que é incrível! - os representantes dos ruralistas.